
A interseção entre paixão e mercado é uma necessidade real, um lugar de pesquisa, e deve ser analisada seriamente, sem buscar fórmula mágica
Por Valéria Effgen
Existem dois conselhos opostos que circulam no empreendedorismo e que, se seguidos isoladamente e sem critério, podem causar danos terríveis na vida de uma mulher que sonha em empreender. É muito triste quando isso acontece.
• O primeiro é o romântico: “siga seu coração, faça o que ama, só vai que o resto vem”.
• O segundo é o cínico: “esqueça a paixão, o que importa é onde tem dinheiro”.
Os dois soam sábios, mas, se você olhar de perto, vai perceber que cada um, sozinho, leva ao mesmo lugar: o esgotamento.
Conheci muitas mulheres que seguiram só o coração. Abriram a confeitaria gourmet, o ateliê de costura criativa, a marca de produtos artesanais com causa. Amavam profundamente o que faziam, trabalhavam treze, quatorze horas por dia, mas o caixa não fechava. Em dois ou três anos, fecharam o negócio achando que o problema foi seguir a paixão, mas não… era a paixão aplicada sem leitura de mercado.
Conheci também muitas mulheres que seguiram só o mercado. Escolheram o setor “que estava em alta”, abriram a franquia da moda, entraram no negócio que algum amigo disse que dava dinheiro. Depois de um tempo, o caixa fechava — às vezes até bem —, mas elas adoeciam. Algumas, literalmente; outras, emocionalmente; todas com a sensação de estar gastando a vida em algo que não importava. Em cinco ou dez anos, vendiam, achando que empreender não era para elas. Só que o problema não era o empreender em si, mas sim empreender naquilo.
O que sustenta um negócio que dura — e, mais importante, uma mulher que dura empreendendo — não é a paixão pura nem o mercado puro. É a interseção entre os dois.
Existe um exercício que cabe em três ou quatro perguntas:
• O que eu faria, ou já faço, mesmo se ninguém me pagasse?
• O que as pessoas já me procuram para fazer, antes mesmo de eu me oferecer?
• Disso, o que alguém pagaria — e quanto?
• É possível que mais pessoas precisem disso que eu sei fazer?
A primeira pergunta mapeia a sua paixão, ou seja, o território onde você floresce. A segunda mapeia o seu valor percebido, isto é, o que o mercado já enxerga em você, mesmo sem você se promover. A terceira mapeia a viabilidade econômica, que é a ponte entre o que você ama e o que sustenta a vida que você quer ter. E a quarta — muito importante — mapeia se há demanda de mercado para isso, ou seja, volume.
Quando as quatro respostas se conversam, aparece um território fértil. Quando elas se contradizem, você ganha uma informação preciosa: a de que ainda há trabalho a fazer antes de abrir o CNPJ.
Vamos ao exemplo de uma mulher que me procurou querendo abrir consultoria de carreira para mulheres em transição. Ela amava o tema (resposta 1), as amigas e ex-colegas já a procuravam informalmente havia anos (resposta 2), mas, na hora de cobrar, travava (resposta 3). O território era fértil; só faltava trabalhar a relação dela com dinheiro. Não era problema de ideia, e sim de preparo.
Outra mulher veio com uma plataforma de bem-estar emocional. Amava o tema (resposta 1), mas, na segunda pergunta, percebeu que ninguém a procurava para falar daquilo. Procuravam para outras coisas, em temas diferentes. A paixão era real, só não estava acompanhada do reconhecimento de mercado. Ali havia dois caminhos: construir reputação no tema antes de monetizar ou olhar com mais carinho para o que as pessoas já reconhecem nela e que se encaixa no seu talento natural.
Existe, ainda, uma camada que precisa ser dita e analisada com seriedade: nós, mulheres, costumamos ter dificuldade especial com a terceira pergunta. Foram décadas de cultura nos ensinando que cobrar é feio, que o dinheiro é vulgar, que, se você ama o que faz, deveria fazer de graça. Mas isso não é verdade! Cobrar bem por aquilo que você faz com excelência é parte do alinhamento. É a forma como o mercado te diz, na linguagem que ele entende, que valoriza o que você entrega.
A interseção entre paixão e mercado é uma necessidade real, um lugar de pesquisa, e deve ser analisada seriamente, sem buscar fórmula mágica. Algumas mulheres encontram rápido; outras levam anos — e ambas as jornadas são legítimas. O que não é legítimo é ficar oscilando entre os extremos: em um ano, se sacrificando pela paixão; no outro, se vendendo ao mercado, sem nunca parar para procurar o ponto onde os dois se encontram.
Depois que você encontrar esse ponto e conseguir fazer a diferença para uma fatia de público — mesmo que pequena —, aí o resto é escala.
Trabalhe e confie. Esse ponto existe… e ele está em um lugar que combina perfeitamente com você.
Valéria Effgen é executiva, fundadora do Voa Mulher e advisor da plataforma de planos de negócios Vibz. Atua com estratégia e desenvolvimento de negócios há mais de 20 anos

