
Empreender em si mesma é, antes de tudo, fazer bem um mapeamento para saber, com precisão, o tipo de trabalho que te fortalece e o tipo que te esvazia
Por Valéria Effgen
Existe uma cena que se repete muito na sala de consultoria: a mulher que chega com a planilha pronta, o nome do negócio escolhido, a identidade visual contratada e, às vezes, até o CNPJ aberto. Tudo em ordem, mas, ainda assim, ela precisa de mais uma reunião antes de começar, porque sente alguma coisa que ainda não consegue nomear. Talvez isso esteja acontecendo com você.
Quase sempre é a mesma coisa: ela sabe o que fazer, mas ainda não sabe que mulher precisa ser para conseguir fazer.
Essa diferença, que parece sutil, custa caro.
O mercado brasileiro é apaixonado por método e adora Canvas, validação, plano de negócios, MVP, OKR… Tudo isso importa — e muito —, mas existe uma etapa anterior a toda metodologia, que quase ninguém faz, porque não está no checklist de nenhum curso de empreendedorismo: o trabalho de se conhecer com profundidade antes de escolher o que empreender.
Não estou falando de meditar mais, nem de fazer terapia (embora as duas coisas ajudem). O processo aqui é algo mais prático, mais incômodo e pede um olhar honesto para perguntas que costumamos evitar:
- Quais são as condições reais em que eu produzo o meu melhor?
- Eu rendo mais sozinha ou em grupo?
- Eu suporto bem a incerteza, ou ela me paralisa?
- Como eu reajo quando alguém discorda da minha ideia em público?
- O que me drena tanto que, depois de fazer aquilo o dia inteiro, não me sobra nada para dar à minha família?
Essas perguntas são insumo de estratégia, porque o negócio que você quer construir vai exigir, todos os dias, exatamente as condições que você provavelmente ainda não mapeou.
Vou te dar um exemplo concreto que vejo se repetir:
Uma mulher que ama planejamento, pensa em sistemas, se realiza vendo um processo bem desenhado, decide abrir um negócio de eventos sociais. O que ela não percebeu no planejamento é que eventos exigem improviso constante, decisões em segundos, lidar com fornecedor que cancelou na véspera. É um negócio lindo, mas exige um perfil que ela talvez não tenha. Em seis meses, está exausta, achando que não serve para empreender — o que não é verdade. Ela serve, e muito, para empreender, mas em algo que respeite o jeito dela de funcionar. O erro, aqui, foi escolher o terreno antes de se conhecer.
E acontece também o oposto: uma mulher altamente intuitiva, que pensa rápido, improvisa bem e se entedia com planilhas. Se essa mulher monta uma empresa de serviços contábeis automatizados, em três meses está se sentindo presa em algo que não combina com a forma como existe no mundo. De novo, aqui o problema não é a capacidade, mas sim o desencaixe entre quem ela é e o que o negócio cobra dela todos os dias.
Empreender em si mesma é, antes de tudo, fazer bem esse mapeamento para saber, com precisão, o tipo de trabalho que te fortalece e o tipo que te esvazia. Compreender em que ritmo você floresce, quais são as suas duas ou três habilidades mais raras, quais competências sempre vai precisar terceirizar e qual é a sua tolerância real a risco, exposição pública e conflito.
E aqui entra uma camada que é específica de nós, mulheres. Quando nos sentamos para fazer esse mapeamento, costuma aparecer uma voz que diz coisas do tipo: “isso é egoísmo, eu deveria estar pensando no negócio, na família, nos outros”. Mas engana-se quem pensa que autoconhecimento é egoísmo. Na verdade, é responsabilidade.
Empreender sem se conhecer é prometer ao mundo uma versão sua que você nem sempre vai conseguir sustentar. Mais cedo ou mais tarde, terá que pagar essa conta.
Ninguém constrói casa sem primeiro medir o terreno — que, nesse caso, é você.
A boa notícia é que esse trabalho não precisa levar anos. O que ele precisa é de honestidade, das perguntas certas e de coragem para olhar o que aparece sem julgamento. Quando feito antes de empreender, te economiza tempo, dinheiro, sócio errado, modelo errado e, principalmente, frustração.
Então, o recado é: antes de empreender no mercado, empreenda em você. O mercado pode esperar. Ele sempre espera. Quem não pode esperar é você e a vida que você está a construir.
Valéria Effgen é executiva, fundadora do Voa Mulher e advisor da plataforma de planos de negócios Vibz. Atua com estratégia e desenvolvimento de negócios há mais de 20 anos

