
A liderança feminina enfrenta solidão e pressão que afetam decisões. Rede de apoio é fundamental para melhores resultados
Por Valéria Effgen
Existe uma cena pouco glamourosa do empreendedorismo, que raramente aparece nos posts motivacionais. É a mulher empreendedora às onze da noite, depois que os filhos dormiram, sentada na cozinha com o notebook aberto, decidindo sozinha algo que vai afetar a vida de cinco, dez, vinte pessoas no dia seguinte.
Pode ser uma demissão difícil, o cancelamento de um contrato, um pedido de empréstimo, ou simplesmente a decisão de continuar ou desistir. Em torno dela, naquele momento, não há ninguém com quem possa conversar como par. Sim, é triste, mas é mais comum do que se imagina.
Vinte e tantos anos vendo isso me ensinaram que a solidão da liderança é, talvez, a parte mais subestimada da jornada empreendedora. Subestimada, porque apesar de muita gente sentir, quase ninguém fala. E quando ninguém fala, cada pessoa que vive essa situação acha que é a única a se sentir assim, que é fraca ou até que está fazendo “corpo mole”.
Existe uma solidão estrutural em liderar, que nada tem a ver com não ter amigos ou família ao redor. É a solidão de carregar decisões que só você pode tomar, com informações que só você tem, e cujas consequências só você vai assumir. Por mais amorosa que seja a sua rede, é raro encontrar alguém que esteja, ao mesmo tempo, dentro do seu negócio o suficiente para entender a complexidade real, e fora o suficiente para te dar opinião isenta.
E aqui entra uma camada específica da experiência feminina: nós fomos historicamente educadas para cuidar dos outros antes de nós mesmas, para suavizar tensões, acolher. Quando viramos lideranças, esse repertório, que é um patrimônio enorme, se vira contra nós quando nos impede de descarregar o peso. Achamos que, se compartilharmos o medo, a dúvida, o cansaço, vamos preocupar a equipe, decepcionar os sócios, parecer fracas. Então engolimos. Sorrimos na reunião, motivamos a equipe na segunda-feira, e à noite seguramos sozinhas o que ninguém pode ver.
Esse padrão tem custo claro no corpo, mas há também um custo estratégico que poucos mencionam: LIDERANÇA SEM REDE DE APOIO É LIDERANÇA QUE DECIDE PIOR.
Quando você não tem com quem pensar em voz alta, suas decisões ficam mais reativas, mais emocionais, mais protetivas do que precisariam. Você decide para se proteger do peso, não necessariamente para fazer o melhor para o negócio, mas isso nem sempre é percebido.
Por isso, a primeira coisa que costumo sugerir para mulheres em posição de liderança não é estratégia, nem precificação, nem marketing. É a construção da rede de apoio certa, em três camadas distintas.
A primeira é a dos PARES: outras mulheres que estão, mais ou menos, no mesmo estágio que você. E aqui não são necessariamente suas amigas de infância ou os sócios do seu negócio. Pares são mulheres que vivem dilemas parecidos, com quem você pode conversar de verdade, sem precisar explicar contexto e sem ser julgada.
A segunda é a da MENTORIA: conduzida por mulheres ou homens que já passaram pela fase em que você está e podem te oferecer perspectiva. Não precisa ser uma pessoa só e nem precisa ser formal. Pode ser uma conversa por mês ou uma troca de mensagens em momentos críticos. O que importa é ter alguém que olhe a sua situação de cima.
A terceira é a do APOIO PROFISSIONAL: terapia, coaching, ou outro espaço pago para processar a sua experiência. Ser pago é importante pois cria um lugar onde você descarrega sem peso de reciprocidade, sem culpa. É um espaço só seu, e isso é raro.
Construir essa rede dá trabalho e exige reconhecer que você precisa, o que muitas mulheres ainda têm dificuldade de admitir. Além disso, exige tempo na agenda, e investimento financeiro, que costuma ser o último a ser priorizado quando o assunto é você mesma.
Mas é exatamente esse o ponto: a sua liderança vale o investimento que você faz nela.
Liderar sozinha não é virtude e muitas vezes pode ser até uma armadilha. Para sair dessa armadilha é preciso uma decisão que, talvez, seja a mais estratégica que uma mulher empreendedora pode tomar.
Não Lidere Sozinha. Você merece apoio à altura do desafio que carrega.
Valéria Effgen é executiva, fundadora do Voa Mulher e advisor da plataforma de planos de negócios Vibz. Atua com estratégia e desenvolvimento de negócios há mais de 20 anos

