
Fraudes digitais na saúde causaram até R$ 34 bilhões em prejuízo no Brasil, impactando pacientes e operadoras em 2023
Por Fernanda Andreão Ronchi
A transformação digital da saúde trouxe avanços importantes para pacientes, clínicas, hospitais e operadoras. Consultas online, prontuários eletrônicos, aplicativos médicos e autorizações digitais facilitaram o acesso e agilizaram processos. Mas esse novo cenário também abriu espaço para um problema crescente: as fraudes envolvendo pacientes na área da saúde.
Nos últimos anos, o setor passou a conviver com golpes cada vez mais sofisticados, que vão desde falsas centrais de atendimento de planos de saúde até vazamento de dados sensíveis, cobranças indevidas, pedidos falsos de transferência para procedimentos médicos e uso irregular de informações pessoais de pacientes.
O problema não é pequeno. Um estudo do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), desenvolvido pela EY, estimou que fraudes e desperdícios na saúde suplementar provocaram um impacto entre R$ 30 bilhões e R$ 34 bilhões em apenas um ano no Brasil, representando cerca de 12,7% das receitas do setor.
Já dados divulgados pela Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde), repercutidos em estudo da PwC Brasil, apontam que somente em 2023 foram registrados mais de 2 mil casos envolvendo crimes e ações cíveis relacionados a fraudes em planos de saúde. Um crescimento de 66% em relação ao ano anterior.
Embora muitas dessas práticas afetem diretamente operadoras e instituições, o paciente também se tornou uma vítima frequente. E, muitas vezes, sem sequer perceber.
Hoje, criminosos utilizam informações reais de usuários para aplicar golpes altamente convincentes. Há casos de pacientes que recebem ligações falsas sobre supostas liberações de cirurgia, cobranças emergenciais para internações ou mensagens contendo links fraudulentos enviados em nome de clínicas e hospitais.
O avanço da digitalização trouxe eficiência, mas também aumentou a circulação de dados extremamente sensíveis. Informações médicas possuem alto valor e exigem proteção redobrada. O vazamento de um prontuário, de um exame ou mesmo de dados cadastrais pode gerar não apenas prejuízo financeiro, mas danos à privacidade, à imagem e à dignidade do paciente.
Além disso, a desinformação nesse segmento cresce em velocidade preocupante. Estudos recentes apontam o avanço de conteúdos falsos relacionados à saúde nas redes sociais e aplicativos de mensagens, especialmente após a pandemia. Isso cria um ambiente propício para manipulações, falsas promessas de tratamento e golpes emocionais direcionados a pessoas em situação de vulnerabilidade.
Diante desse cenário, cresce a necessidade de conscientização e prevenção. Pacientes devem desconfiar de pedidos urgentes de pagamento, confirmar informações diretamente nos canais oficiais de hospitais e operadoras e ter cautela ao compartilhar dados pessoais e documentos médicos.
Ao mesmo tempo, instituições de saúde também precisam investir cada vez mais em segurança da informação, treinamento de equipes e mecanismos de proteção de dados. A confiança é um dos pilares da relação na área da saúde, e proteger o paciente vai muito além do atendimento médico.
Em um setor que lida diariamente com vidas, fragilidades e informações íntimas, segurança e transparência deixaram de ser apenas diferenciais. Tornaram-se uma necessidade coletiva.
Fernanda Andreão Ronchi é advogada especialista em Direito Médico e da Saúde

