
O que, realmente, sustenta uma mulher empreendendo por muitos anos é a capacidade de tomar decisões a partir da verdade de quem ela é, mesmo que pareça fraqueza
Por Valeria Effgen
É comum associar coragem com a obrigação de avançar a qualquer custo. Para muitas, ter coragem significa, muitas vezes, resistir ao cansaço, à dúvida, ao conselho contrário e até mesmo à própria intuição quando ela diz que é hora de parar. Mas isso não é necessariamente ter coragem, mas sim uma forma muito sofisticada, pouco inteligente, e socialmente premiada, de resistência.
Existe uma distinção sutil entre coragem e resistência. As duas se parecem por fora, especialmente para quem as observa de longe, só que olhando de perto, elas têm naturezas radicalmente diferentes. A coragem decide a partir da escuta e a resistência decide contra ela.
A coragem protege o que importa, mesmo quando o gesto consciente parece, para o mundo, com recuar ou desistir. Já a resistência atropela o que importa em nome de uma versão de si que precisa, a todo custo, provar algo.
É justamente nessa distinção que mora a confusão mais cara da nossa geração de mulheres empreendedoras.
Para entender porque caímos tanto nessa armadilha, precisamos olhar de onde vem a nossa relação com a palavra coragem. Por séculos, fomos educadas a duvidar dela em nós. Sempre nos disseram que éramos sensíveis demais, emotivas demais, hesitantes demais para sustentar grandes decisões. Quando finalmente acessamos o lugar de quem decide, de quem lidera e de quem empreende, fomos buscar o conceito coragem no único repertório que nos foi historicamente modelado: o masculino. E o masculino, em sua versão mais visível e mais premiada culturalmente, nos leva justamente para a resistência.
Por isso, ao “decidirmos ser corajosas”, muitas de nós passam a confundir coragem com endurecimento, com obstinação e até mesmo com a recusa em ouvir o próprio corpo, os próprios afetos e as próprias intuições. A partir desse lugar, construímos negócios e vidas a baseados em um falso heroísmo, sem perceber que estamos, na verdade, reproduzindo uma forma de coragem que já adoeceu gerações de homens antes de nós.
A coragem que realmente capaz de sustentar uma mulher por muitos anos não é essa. É mais parecida com um discernimento profundamente capacitador, e talvez seja por isso que ela nos pareça, à primeira vista, com fraqueza.
CORAGEM É CAPACIDADE
É a capacidade de parar diante de um sinal claro, ainda que continuar fosse mais elegante para a plateia. É a capacidade de pedir ajuda quando a tarefa excede honestamente o que cabe em uma só pessoa. É a capacidade de cancelar um contrato que está sangrando, de fechar um negócio que parou de servir, ou, de dizer não a um cliente grande que a destrata. É a capacidade, mais difícil de todas, de admitir que mudou de ideia e de revisar publicamente uma rota que pareceu certa por meses.
Essas formas de coragem têm uma característica que as une: exigem da mulher uma escuta profunda do que está acontecendo dentro e ao redor dela, além da disposição de agir a partir dessa escuta, mesmo quando o gesto consciente é incompreensível para quem está de fora. É a capacidade de agir, mesmo aparentando fraqueza. É a forma mais madura, e mais protetiva, de exercer o próprio poder.
Existe uma pergunta que filtra e que pode ser aplicada quando aquela voz interna do “eu preciso aguentar mais um pouco” aparece: isto que estou prestes a fazer nasce de uma escuta real, ou nasce do medo de parecer fraca diante de algum olhar imaginário? A resposta honesta separa, quase sempre, o esforço que ainda faz sentido do esforço que já se transformou em violência contra si mesma.
E aqui chegamos ao ponto estratégico que sustenta toda essa reflexão: coragem mal calibrada não é apenas dolorosa, ela é cara, muito cara. Uma mulher que decide a partir do esgotamento decide pior. Um negócio sustentado na resistência cega é um negócio mais frágil, mais reativo, mais propenso ao erro grave.
Quem aguenta o insuportável acaba, mais cedo ou mais tarde, perdendo justamente aquilo que tentava preservar pois, para sustentar uma vida inteira empreendendo, você precisará ter reserva de energia, e ninguém constrói reserva a partir da exaustão.
A coragem verdadeira nunca vai te destruir para entregar um resultado, mas sim te preservar para que você possa continuar entregando, com lucidez e inteireza, durante muitos anos.
Então, minhas amigas, coragem não é necessariamente resistir e continuar, mas sim discernir se continuar é o melhor caminho para você. Tenha coragem de se escutar e use essa escuta para se proteger, não para se auto violentar.
Valéria Effgen é executiva, fundadora do Voa Mulher e advisor da plataforma de planos de negócios Vibz. Atua com estratégia e desenvolvimento de negócios há mais de 20 anos

