
O Espírito Santo consolida liderança na economia circular com avanços em logística reversa, investimentos e políticas públicas
Por Beatriz Luz e Mirela Souto
Em muitas empresas, a agenda ESG ainda é tratada como uma pauta de compliance e comunicação, que vem associada a oportunidades de marketing ou a custos extras. A economia circular também surge inicialmente como um tema a ser inserido nos relatórios de sustentabilidade de grandes corporações ou como uma agenda voltada para as startups. Mas há uma urgência que não pode ser adiada e o Espírito Santo está construindo as condições necessárias para que companhias de qualquer setor e porte vejam na circularidade um fator de vantagem competitiva.
A economia circular estabelece um modelo de produção e consumo que elimina o conceito de resíduo, mantendo materiais e recursos em uso pelo maior tempo possível. Isso significa redesenhar produtos para que durem mais, podendo ser desmontados e reutilizados; criar sistemas de logística reversa que mudem o conceito de pós-consumo; e substituir insumos virgens por matérias-primas secundárias. Acima de tudo, é uma nova régua econômica, a qual exige visão sistêmica, reorganização de cadeias produtivas, integração entre os setores público e privado, financiamento e geração de escala às soluções.
O objetivo não é demonstrar o que uma empresa já está fazendo e, sim, o que ela pode alcançar com novos arranjos de mercado, medidas diferenciadas de investimento e retorno, e relações comerciais mais maduras. Os ganhos envolvem menor dependência e menos gastos nas cadeias de suprimentos voláteis, bem como resiliência diante das grandes crises globais: em resumo, uma gestão inteligente para os negócios que querem se manter competitivos e saudáveis.
O Brasil vem construindo marcos robustos para a transição circular, apesar dos desafios existentes. Em 2024, o governo federal lançou a Estratégia Nacional de Economia Circular e, no ano seguinte, aprovou o Plano Nacional de Economia Circular, que define objetivos e ações estratégicas para os próximos dez anos. Um ponto central é o desenvolvimento econômico regional, com o engajamento de estados e municípios em políticas públicas voltadas à circularidade.
O Espírito Santo caminha para assumir protagonismo no tema, com uma vocação industrial que engloba importantes programas de desenvolvimento e uma logística estratégica para lidar com grandes volumes de materiais. A força da indústria de base, característica da região, dá espaço para o impulsionamento de soluções em escala, a partir de novas propostas de valor para os insumos e coprodutos gerados no estado. O Fundo Soberano estimula oportunidades de investimentos, crescimento e diversificação da economia, com incentivos à inovação e, consequentemente, a projetos circulares.
No quesito da logística reversa, a estrutura está posta. O ES foi o primeiro estado do país a criar o Certificado de Crédito de Massa Futura na logística reversa de embalagens. Recentemente, o governo estadual lançou o Programa Regeneratech, com foco na reutilização, recondicionamento e destinação adequada de equipamentos do serviço público. E, desde 2024, o Sistema Estadual Eletrônico de Informações sobre Logística Reversa de Embalagens monitora, regulamenta e garante transparência aos processos. Agora, as empresas locais devem usar esse arcabouço como alavanca estratégica, não apenas obrigação a cumprir.
Um dos destaques capixabas na economia circular é o Parque de Ecoindústria da Marca Ambiental: com 14 empresas integradas, promove a transformação de resíduos em matérias-primas que retornam às cadeias produtivas,reduzindo o consumo de recursos naturais e impulsionando novos negócios. O complexo industrial é um elo estratégico para a transição para uma economia de baixo carbono, reforçando o protagonismo do ES nesta agenda.
Uma pesquisa realizada pelo Observatório Findes com o Bandes mostrou que sete em cada dez empresas capixabas pretendem ou avaliam investir em ações de descarbonização. Entre os grupos de projetos de maior interesse, gestão de resíduos e economia circular aparece em terceiro lugar, com 78% das empresas demonstrando atenção ao tema.
Falta conectar intenção a plano, dado a ação, empresa a ator público. A economia circular exige visão sistêmica e colaborativa, para transformar oportunidades em novas cadeias circulares, lacuna que o ES tem a valiosa oportunidade de preencher. Para as empresas que estão construindo suas estratégias de descarbonização, movidas por convicção, acesso a mercados internacionais ou exigências crescentes, a circularidade não é mais um caminho paralelo, mas a única via.
O estado tem universidades que geram conhecimento aplicável à indústria local; um Ministério Público atuante na fiscalização e no diálogo com o setor produtivo; órgãos como a Seama, a Findes e o SimReciclo avançando em regulação e inteligência de mercado; um sistema financeiro estadual com instrumentos de financiamento verde. As partes precisam falar umas com as outras e a economia circular é a linguagem comum capaz de conectá-las.
Estamos no mapa nacional de uma transição que já não pode mais ser postergada.
Em 21 de julho, o Espírito Santo receberá, pela primeira vez, uma das iniciativas mais relevantes sobre economia circular do país, o Roadshow Ambição Circular 2026, iniciativa pioneira do Ibec, por meio do Hub de Economia Circular Brasil (HubEC) que visa posicionar a Economia Circular como vetor de competitividade. O encontro será sediado na Findes, em Vitória, e tem como Host o Instituto MARCA. O encontro reúne lideranças industriais, representantes do setor público, do sistema S, do setor financeiro e o especialista internacional Nicolas Buchoud, presidente da Aliança da Grand Paris pelo Desenvolvimento Metropolitano (Cercle Grand Paris de lÍnvestissement Durable), membro da Global Solutions Initiative e representante da Syctom, maior operadora europeia de gestão de resíduos urbanos da França. O tema da parada capixaba é valorização e abordagem sistêmica, com foco na economia circular como estratégia de desenvolvimento territorial. É uma oportunidade de transformar dados em plano de ação, e de colocar o Espírito Santo no mapa nacional de uma transição que já não se pode esperar.
A economia circular não é o futuro. É o presente dos negócios que querem continuar competitivos. E o ES tem tudo para liderar essa virada.
Beatriz Luz é presidente do Instituto Brasileiro de Economia Circular e fundadora do Hub de Economia Circular Brasil
Mirela Souto é presidente do Instituto Marca, ambiente de pesquisa em economia circular no Espírito Santo

