
O futebol moderno anda apaixonado por movimentos elaborados. Talvez esse seja um retrato do nosso tempo. O pênalti precisa parecer uma apresentação artística
Por André Gomyde
A humanidade é fascinante. Consegue complicar as coisas mais simples com uma criatividade digna de prêmio internacional. Tomemos como exemplo a cobrança de pênalti. Durante décadas, o método era bastante objetivo. O jogador colocava a bola na marca da cal, dava alguns passos para trás, respirava fundo, corria e chutava. Ou a bola entrava, ou o goleiro defendia, ou ela acertava algum pombo desavisado. Havia dignidade na simplicidade.
Então alguém resolveu inovar. Hoje surgiu uma nova modalidade. O cobrador sai correndo e, de repente, transforma-se numa espécie de gazela saltitante. Dá pulinhos curtos, interrompe a corrida, balança o corpo, hesita, recomeça, pensa, reflete sobre a existência, consulta o alinhamento dos planetas e só então decide chutar. O resultado costuma ser emocionante. Para o goleiro.
Fico imaginando quem foi o primeiro sujeito a pensar nisso. Certamente acordou numa terça-feira qualquer e anunciou para os amigos: “Descobri! Para aumentar minhas chances de fazer o gol, vou dificultar minha própria vida”. E alguém respondeu: “Gênio!”. É curioso como certas invenções sobrevivem justamente porque parecem sofisticadas. Se o jogador perde o pênalti correndo normalmente, dizem que foi azar. Se perde depois de uma coreografia inspirada numa gazela atravessando o Serengeti, chamam de estratégia.
O futebol moderno anda apaixonado por movimentos elaborados. Daqui a pouco o atleta fará aquecimento, meditação, respiração consciente, um pequeno balé contemporâneo e só depois tocará na bola. Enquanto isso, o goleiro agradece. Porque, convenhamos, é muito mais fácil defender um chute de quem ainda está resolvendo se termina ou não a corrida.
O curioso é que a Física continua sendo profundamente conservadora. A bola não entra no gol porque o jogador saltitou com elegância. Ela entra porque foi bem chutada. Newton continua vencendo TikTok.
Talvez esse seja um retrato do nosso tempo. Vivemos cercados pela ilusão de que tudo precisa parecer extraordinário. O café precisa ser gourmet. O currículo precisa ser disruptivo. A reunião precisa virar meeting. O pênalti precisa parecer uma apresentação artística. Esquecemos que muitas das grandes conquistas da humanidade nasceram justamente da boa e velha simplicidade.
É claro que, de vez em quando, alguém faz um golaço usando a técnica da gazela. E imediatamente aparecem milhares de imitadores. Ninguém copia os que erraram. Só os que acertaram. É uma espécie de seleção natural da vaidade.
No fundo, talvez o futebol esteja apenas reproduzindo um velho hábito humano. Confundimos dificuldade com inteligência. Achamos que complicar é evoluir. Nem sempre. Às vezes, a melhor tecnologia continua sendo correr, encher o pé e mandar a bola para dentro. Sem pulinhos.
As gazelas, afinal, nunca tiveram fama de centroavante.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

