Entre herói, vilão, mártir ou guru espiritual, o ovo segue no centro do debate, enquanto permanecemos confusos e cansados, sem saber se o café da manhã é salvação ou perdição.
Por André Gomyde
Há temas que voltam na vida da gente como aquelas ligações de número desconhecido: você não quer atender, mas elas insistem. O ovo é um deles. Há décadas ele nos persegue, ora como mocinho, ora como vilão, ora como uma celebridade problemática que ninguém sabe se cancela ou se aclama. É uma canseira.
Houve um tempo — você deve lembrar — em que comer um ovo por dia era praticamente assinar um atestado de óbito antecipado. “Cuidado com o colesterol!”, diziam as revistas, os médicos, os vizinhos e até a tia que fritava pastel em óleo de três dias. “Máximo cinco por semana.” Era uma conta que deixava todo mundo tenso. Cinco por semana? E se eu quisesse omelete no sábado e no domingo? Eu tinha que escolher qual dos dias seria o dia oficial do pecado. Difícil.
Mas o mundo gira, a ciência revira, e de repente o ovo virou o super-herói da nutrição. Proteína pura! O alimento perfeito! Pode comer dois, três, quatro por dia! Quem sabe até abrir uma granja na cozinha e viver de omelete. O ovo foi da cadeia para Harvard sem escala. Um fenômeno.
Aí – porque a vida nunca deixa barato – apareceram os especialistas da terceira via do ovo. “Pode comer, sim, mas só ovo cozido.” A gema mole passou a ser vista como um capricho perigoso, quase uma aventura de esportes radicais. E a omelete, coitada, virou símbolo de decadência moral e nutricional.
E não para por aí. Porque agora, além de cozinhar o ovo, você precisa escolher o ovo certo. Não é qualquer ovo. Tem que ser o “ovo gourmet”, aquele de galinhas que não apenas são caipiras, mas fazem yoga, meditação e terapia. São as galinhas felizes: vivem soltas, comem grãos orgânicos e sabem que vão morrer – mas parecem lidar bem com isso, o que é uma maturidade emocional que poucos humanos têm. Imagina o nível de autoestima de uma galinha que põe um ovo de 25 reais a dúzia. Eu, no lugar dela, estaria insuportável.
O fato é que, enquanto nós debatemos se o ovo é herói, vilão, mártir ou guru espiritual, continuamos aqui: confusos, cansados e tentando entender se o café da manhã vai nos salvar ou nos destruir. E o pior é que esse debate é cíclico. Daqui a alguns anos, algum estudo vai dizer que o ideal é comer apenas a casca, ou só o cheiro do ovo, ou ovos produzidos por galinhas com diploma de filosofia. Não duvido de mais nada.
A verdade é que essa novela nutricional não termina nunca. E, como dizia um querido amigo, homem simples, sábio sem querer ser: “É um pé no saco … É um chute nos ôvo.”
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde


