
E se o turismo é essa grande viagem de conexões, talvez o futuro não seja sobre quantos quilômetros se percorre, mas sobre quantos horizontes se amplia.
Por André Gomyde
Quando se pensa em turismo, a primeira coisa que vem à cabeça é uma viagem. Gente arrumando mala, discutindo se leva o casaco ou não, alguém esquecendo o carregador do celular. E, claro, o embarque apressado, o avião cheio e aquele passageiro que insiste em reclinar a poltrona inteira como se fosse dono do espaço aéreo. É disso que se trata o turismo tradicional: sair de um lugar e chegar a outro, o chamado destino. E é lindo, porque promove o encontro entre pessoas, sotaques e temperos. Mas, convenhamos, às vezes o caminho até o destino é uma maratona.
Nos últimos anos, porém, começaram a falar de um tal de “turismo inteligente”. Em princípio, achei que fosse aquele em que a mala se arruma sozinha ou o hotel entende que “ar condicionado no 22” não é uma sugestão, é um pedido de socorro. Mas não. Descobri que turismo inteligente tem a ver com tecnologia, com cidades conectadas, com aplicativos que mostram desde o cardápio do restaurante até a fila do banheiro do museu. Tudo muito moderno – e às vezes um pouco assustador.
O fato é que o turismo inteligente transformou o conceito de viagem. Hoje dá pra conhecer o Louvre sem sair da sala, visitar Machu Picchu entre uma reunião e outra e ouvir o batuque da Bahia enquanto o café ainda está coando.
Eu, que além de outras peripécias também sou músico e compositor, adoro “turistar” sem sair de casa. É o que chamo de turismo cultural digital: abrir o mapa do mundo na tela e deixar o ouvido viajar. Cada clique é uma descoberta. Já fui da Mongólia à Etiópia em uma manhã, e voltei com mais ideias do que um compositor poderia suportar antes do almoço.
Descubro bandas da Islândia, sambas de Angola, jazz etíope, e fico maravilhado com o que as pessoas criam mundo afora. É um tipo de turismo cultural que não exige passaporte – só curiosidade e uma boa conexão de internet.
Mas não é só diversão. Esse tipo de turismo também tem um poder social enorme. Ele aproxima quem nunca se encontraria e faz o gestor turístico repensar seu papel. Afinal, o turismo de hoje não é mais só sobre embarque e desembarque, mas sobre conexão.
Conexão entre tecnologia e arte, economia e cultura, visitantes e moradores, passado e futuro. O turista inteligente não leva apenas lembranças – leva conhecimento, ideias e um olhar novo sobre o mundo.
É por isso que, quando se fala em turismo, é preciso ir além do destino. O turismo é um fenômeno multidisciplinar, quase como uma cidade viva, onde cada setor precisa conversar com o outro para que tudo funcione. É como na cidade humana, inteligente, criativa e sustentável: tudo integrado para ter sentido, gerar riqueza e, principalmente, qualidade de vida.
E se o turismo é essa grande viagem de conexões, talvez o futuro não seja sobre quantos quilômetros se percorre, mas sobre quantos horizontes se amplia. No fim das contas, o melhor destino é aquele que a gente encontra dentro da própria curiosidade — com ou sem bagagem despachada.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde
*Artigo publicado originalmente na revista ES Brasil 230, de Dezembro de 2025. Leia a edição completa aqui.

