Neste ano, construímos o Plano ES 500 Anos, que traz a visão de futuro para os próximos 10 anos. O documento reconhece com clareza o momento de transição
Por Érika Leal
Ao completar o primeiro quarto do século XXI, o Espírito Santo chegou a 2025 trazendo um ponto de inflexão. Após décadas de crescimento vigoroso, sustentado acima da média nacional, a economia capixaba se vê diante de novos e complexos desafios. A década de 2010 a 2020 marcou o fim de um ciclo de expansão contínua e o início de um período de incertezas e reavaliações profundas.
Diversos fatores explicam essa virada. A maturação da estrutura produtiva estadual, antes impulsionada por grandes empreendimentos industriais e pela força do ciclo das commodities, passou a limitar o potencial de crescimento. A bonança promovida pela demanda chinesa nos anos 2000 cedeu espaço a um cenário internacional menos favorável. Soma-se a isso o que denomino de “trilogia hídrica”: as enchentes de 2013, a severa seca entre 2015 e 2017 e o desastre ambiental da Samarco em 2015. Esses eventos, adicionados à pandemia de 2020, deixaram marcas profundas na economia e no tecido social capixaba.
A partir dos anos 2000, o Espírito Santo buscou trilhar um caminho de planejamento de longo prazo. Inicialmente, o Plano ES 2025, que foi lançado em 2006, fortemente alicerçado na consolidação das instituições. Chegamos em 2025 e carecemos de um debate profundo sobre os resultados alcançados. Em 2013, uma nova edição, o Plano de Desenvolvimento ES 2030, reforçou o foco em inovação e competitividade global.
Neste ano, construímos o Plano ES 500 Anos, que traz a visão de futuro para os próximos 10 anos, até 2035, quando o Estado celebrará meio milênio de história. O documento reconhece com clareza o momento de transição. Como sintetiza uma de suas passagens centrais: “O crescimento conquistado até aqui, impulsionado pela força do legado acumulado, não é suficiente, por si só, para assegurar um Espírito Santo ainda mais competitivo, inovador e sustentável”. A advertência é precisa. A iminente reforma tributária, com plena vigência a partir de 2033, eliminará o atual sistema de incentivos fiscais, exigindo do Espírito Santo novas estratégias para manter sua atratividade e dinamismo econômico.
Os números recentes mostram sinais mistos. Após uma retração de 1,7% em 2022, o Produto Interno Bruto (PIB) estadual ensaiou recuperação em 2023 e 2024, cresceu 2,6%, embora ainda abaixo da média nacional nesse último ano (3,4%). Em 2025, até o segundo trimestre, o crescimento de 2,3% traz novamente uma trajetória de retomada. Com as contas públicas equilibradas e uma robusta carteira de investimentos – estimada em mais de R$ 137 bilhões para o período 2024-2029, segundo o Instituto Jones dos Santos Neves –, o Espírito Santo alcançou a menor taxa de desemprego de sua história, 3,1% até agosto deste ano.
Mas o futuro ainda exige prudência. Mudanças climáticas, transição tributária, transformações demográficas, geopolíticas e tecnológicas, todas se entrelaçam num cenário de complexidade crescente.
A tarefa que se impõe é clara: promover um desenvolvimento sustentado e sustentável, com diversificação produtiva, maior sofisticação tecnológica e inclusão econômica. O que está em jogo não é apenas o crescimento de curto prazo, mas a capacidade de construir um novo ciclo de prosperidade, mais equilibrado, inovador e humano. O tempo de planejar o futuro é agora. E o futuro, inevitavelmente, exigirá trabalho, visão e coragem coletiva.
Érika Leal é presidente do Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (Corecon-ES)
Esse artigo é uma republicação da Edição 231 da Revista ES Brasil – Retrospectiva 2025 – Leia aqui


