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Café: do simples prazer à complicação gourmet

O café, que antes custava uma moedinha, agora exige que você gaste o equivalente a uma refeição inteira

Por André Gomyde

Antigamente, pedir um café era fácil. Você chamava o garçom, pedia “um café” e, como mágica, vinha à mesa uma xícara de café. Simples, direto e revigorante. Mas hoje, pedir um café virou uma aventura que exige um curso rápido de italiano, uma pitada de paciência e, claro, um pouco mais de dinheiro.

Agora, quando você ousa pedir um café, o garçom te olha como se tivesse acabado de perguntar qual o significado da vida e inicia uma sequência interminável de opções: “Ristretto, leggero, moderato, lungo, doppio?” E lá está você, tentando não parecer ignorante, enquanto torce para que algum deles signifique simplesmente… café.

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Vivemos numa era onde o simples prazer de tomar um café foi transformado em um dilema existencial. O garçom se aproxima e, ao invés de te servir, te joga em um labirinto de escolhas: “Deseja um ristretto, senhor, com a intensidade que lembra um soco no estômago? Ou talvez um lungo, para aquele momento em que o café quer ser chá? E quanto à origem dos grãos? Um toque colombiano ou uma pitada etíope?” Afinal, em que momento tomar um café virou uma experiência que precisa ser explicada como se fosse uma obra de arte renascentista?

O truque é claro: adicionar “frescura” e, com ela, um preço encarecido. É o famoso “vamos fingir que tem algo de especial” para cobrar um pouco (ou muito) a mais.

O café, que antes custava uma moedinha, agora exige que você gaste o equivalente a uma refeição inteira, tudo porque a experiência envolve complexas camadas de sabor e um ritual que faz o garçom explicar, com tom de especialista, cada detalhe da torra. Mas a pergunta real é: será que precisamos disso tudo? Ou estamos apenas dispostos a pagar mais caro por um café comum, só que com sobrenome sofisticado?

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Imagina-se que toda essa nomenclatura chique e detalhada traga algum diferencial revolucionário. Mas, no fim, você continua recebendo um café que, no fundo, ainda é… café. Claro, ele pode ter notas florais, corpo médio, retrogosto amadeirado e mais uma lista de adjetivos que daria orgulho a qualquer crítico gastronômico, mas a realidade é que ainda estamos falando da mesma bebida que, décadas atrás, bastava pedir para simplesmente aparecer.

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E o mais irônico é que, se você tentar simplificar e pedir “um café preto”, o garçom te olhará como se tivesse acabado de cometer uma heresia. Ele responderá com um meio sorriso condescendente e sugerirá, com leve desprezo, que você deveria ao menos experimentar um “lungo”. Afinal, pedir café puro hoje em dia é quase um crime contra o “gourmet”. E lá estamos nós, sucumbindo à pressão social e aceitando um termo italiano qualquer, na esperança de que, talvez, o café venha antes de esfriar.

Toda essa parafernália nos faz perguntar: para quem realmente serve essa complicação? Será que precisamos mesmo desse “show do café”? Afinal, se ele é bom, não precisa de uma tese de doutorado para ser apreciado. Não é preciso um ritual de degustação, como se estivéssemos analisando as propriedades de um raro vinho da Borgonha. Um café deveria ser, acima de tudo, simples e prazeroso. Não um evento onde se paga um preço absurdo por uma experiência que, no final das contas, tem o mesmo gosto do café que nossos avós bebiam sem frescura.

Sejamos sinceros: o café, em sua essência, é só café. E, talvez, seja essa a beleza dele. O resto é invenção, uma forma de mascarar o preço salgado que justifica a infinidade de termos italianos e opções que ninguém realmente pediu.

Mas, enquanto continuarmos fingindo que sabemos a diferença entre “ristretto” e “leggero”, talvez ainda reste esperança para quem insiste que o café precisa ter alma, aroma, história — e, claro, um bom desconto para quem só quer uma boa e velha xícara de simplicidade.

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André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em administração pela FCU-EUA. @andre.gomyde

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