
Pesquisa do Instituto Patrícia Galvão aponta que 76% das mulheres brasileiras já sofreram algum tipo de violência, assédio ou constrangimento no trabalho
Por Josy Santos
A violência contra a mulher é uma das expressões mais persistentes da desigualdade de gênero no Brasil e seus efeitos ultrapassam a esfera privada. Eles chegam ao ambiente de trabalho, impactam trajetórias profissionais e desafiam diretamente as políticas de gestão de pessoas nas organizações.
Dados recentes mostram a dimensão do problema. O Brasil registra mais de mil casos de feminicídio por ano e milhares de ocorrências de violência doméstica e sexual. No ambiente de trabalho, a situação também é alarmante. Pesquisa do Instituto Patrícia Galvão aponta que 76% das mulheres brasileiras já sofreram algum tipo de violência, assédio ou constrangimento no trabalho, incluindo humilhações, ameaças, assédio moral ou sexual e até agressões físicas.
Essas situações geram consequências profundas para as mulheres e também para as organizações. Muitas vítimas enfrentam dificuldades para manter sua rotina profissional, com faltas recorrentes, queda de produtividade, problemas de saúde mental e, em alguns casos, afastamento ou abandono do emprego. A violência de gênero, portanto, não é apenas uma questão individual — ela impacta diretamente o clima organizacional, a segurança psicológica das equipes e a sustentabilidade das empresas.
Diante desse cenário, cresce a responsabilidade das organizações em estruturar políticas claras de prevenção e enfrentamento ao assédio e à violência de gênero. Isso inclui criar ambientes de trabalho seguros, estabelecer canais de denúncia confiáveis, garantir apuração adequada dos casos e promover uma cultura organizacional que não tolere qualquer forma de violência ou discriminação.
Nesse contexto, iniciativas institucionais têm buscado mobilizar empresas e instituições públicas para um compromisso coletivo. Uma delas é o Pacto “Ninguém se Cala”, iniciativa do Ministério Público do Trabalho que convoca organizações a assumirem responsabilidade ativa na prevenção e no enfrentamento da violência contra a mulher, especialmente em espaços de trabalho e atendimento ao público.
O pacto propõe ações como a implementação de canais seguros de denúncia, capacitação de equipes para identificação e acolhimento de vítimas, desenvolvimento de protocolos de atuação em casos de violência e campanhas de sensibilização. Mais do que um compromisso formal, trata-se de um movimento que reconhece que o silêncio institucional contribui para a perpetuação da violência.
Ao aderirem a iniciativas como essa e fortalecerem suas políticas internas de equidade e proteção, as organizações ampliam sua capacidade de cuidar das pessoas e de construir ambientes mais seguros e respeitosos. Também contribuem para transformar padrões culturais que historicamente naturalizaram a violência e o assédio.
Promover ambientes de trabalho onde mulheres possam exercer suas atividades com segurança, dignidade e respeito é uma responsabilidade coletiva. E, diante da violência, a postura das organizações precisa ser clara: ninguém deve se calar.
Josy Santos é diretora da ABRH-ES e especialista em gênero, raça e etnia

