A educação é o caminho para construir consciência e esperança contra a violência que atinge as mulheres
Por Luiz Fernando Schettino
A educação dos meninos dentro de casa precisa ser repensada: pais que reproduzem valores machistas acabam formando jovens que confundem “valentia” com covardia, perpetuando ciclos de violência e desigualdade.
Essa lógica cria homens incapazes de lidar com frustrações sem recorrer à agressividade, sustentando uma cultura de dominação que atravessa gerações.
É importante lembrar que a violência contra as mulheres não escolhe classe social, nem nível educacional e/ou econômico: mulheres de todas as origens são atingidas pela violência. E somente leis ou estruturas de segurança pública não bastam para conter esse problema.
A realidade mostra que até mesmo mulheres que atuam na segurança têm sido vítimas — como a comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa, morta a tiros pelo namorado policial rodoviário federal, e uma policial militar em São Paulo, assassinada pelo marido tenente-coronel da PM.
Esses episódios revelam que a violência de gênero atravessa fronteiras sociais e institucionais, exigindo mudanças profundas na educação e na cultura.
Diversos pensadores ajudam a compreender esse processo. Bell Hooks (filósofa e educadora americana) mostrou que o patriarcado oprime também os homens, ao restringir sua capacidade de expressar emoções e empatia. Pierre Bourdieu (sociólogo francês) explicou, em “A Dominação Masculina”, como práticas familiares e culturais naturalizam a desigualdade de gênero e reforçam a violência simbólica.
Judith Butler (filósofa americana) argumenta que o gênero é uma construção social e que desconstruir normas rígidas é essencial para formar sujeitos mais livres e responsáveis. Já Hugo Monteiro Ferreira (filósofo e educador brasileiro) defende que o feminismo para meninos é um antídoto contra a masculinidade tóxica, ensinando respeito e igualdade desde cedo.
Mas não basta olhar apenas para os meninos. A educação das meninas também precisa ser aprimorada, para que aprendam a se defender, a reconhecer sinais de perigo nas relações e a saber a hora de dar o basta e procurar ajuda.
Instituições como a ONU Mulheres reforçam que uma educação inclusiva em igualitária é determinante para enfrentar desigualdades e garantir ambientes seguros, fortalecendo meninas para o enfrentamento da violência de gênero.
Essas reflexões convergem para uma mesma conclusão: é urgente educar meninos para o respeito e meninas para a defesa e autonomia.
O exemplo dos pais é decisivo — quando praticam relações igualitárias e valorizam o cuidado, mostram aos filhos e filhas que ser humano não significa ser violento, mas sim responsável e solidário.
E há esperança. Como lembra Bell Hooks, a educação crítica e afetiva pode ser um caminho de libertação, capaz de transformar não apenas indivíduos, mas toda a sociedade.
A sociedade precisa, em conjunto, construir consciência, paz e respeito — em relação às mulheres, aos mais vulneráveis e também à natureza. Esse compromisso coletivo é a única forma de romper ciclos de violência e abrir espaço para uma convivência mais justa e humana.
Luiz Fernando Schettino é Engenheiro Florestal, Mestre e Doutor em Ciência Florestal, Advogado, Escritor e ex-Secretário Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos


