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Soluções capixabas para uma agricultura sustentável

Com apoio de políticas públicas, ciência e inovação no manejo agrícola, o Espírito Santo fortalece a agricultura frente à crise hídrica e às mudanças do clima

Por Maxieni Muniz

Enfrentar os efeitos das mudanças climáticas é um dos maiores desafios para a agricultura brasileira. No Espírito Santo, essa realidade é ainda mais urgente: o estado conta com poucos rios perenes, o que limita a captação de água, ao mesmo tempo em que a população cresce e a agricultura se mantém como maior consumidora dos recursos hídricos. Para garantir a sustentabilidade da produção rural, o governo estadual tem apostado em políticas públicas voltadas à conservação ambiental e à gestão eficiente da água.

O Pedeag 4, Plano Estratégico da Agricultura Capixaba (2023–2032), orienta investimentos com foco na preservação das nascentes, no aumento da cobertura vegetal e na modernização de práticas produtivas. Programas como Reflorestar, Produtores de Água e o de Construção de Barragens reforçam esse eixo ao promoverem o reflorestamento de áreas degradadas, incentivos financeiros à preservação e a construção de reservatórios hídricos.

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A partir dessas diretrizes, o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) lidera iniciativas de pesquisa e transferência de tecnologias adaptativas no campo.

Além de fomentar a construção de barragens e o uso racional da água, o Incaper vem desenvolvendo soluções para mitigar impactos causados por ondas de calor, estiagens prolongadas e chuvas torrenciais.

O objetivo é manter a produtividade agrícola em alta, mesmo diante de cenários climáticos extremos.

Pesquisa e inovação contra os extremos climáticos

A ciência tem sido uma aliada estratégica na construção de um novo modelo agrícola para o Espírito Santo. No centro desse esforço, o Incaper articula pesquisa aplicada, desenvolvimento tecnológico e extensão rural. O foco está em oferecer aos agricultores soluções eficazes para aumentar a resiliência das lavouras, especialmente frente à escassez hídrica e aos eventos climáticos que afetam a produtividade.

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A pesquisadora Sara Dousseau Arantes, doutora em Fisiologia Vegetal e referência nacional em estudos sobre estresse ambiental em plantas, coordena projetos inovadores que atuam diretamente sobre a tolerância de culturas estratégicas para o estado, como café conilon, pimenta-do-reino e abacaxi. No caso da cafeicultura, por exemplo, o uso de bioestimulantes e nanopartículas tem sido validado para induzir tolerância ao calor e à seca, enquanto planos de manejo específicos ajudam a restaurar o metabolismo das plantas após períodos de estresse.

Na pimenta-do-reino, Sara lidera pesquisas sobre o uso de porta-enxertos com maior tolerância hídrica e resistentes à fusariose – uma das principais doenças fúngicas em culturas vegetais que causa podridão, malformações florais e vegetativas, além de perdas econômicas significativas.

Os experimentos têm revelado o potencial de enxertia com espécies nativas do gênero Piper como alternativa promissora. Já para o abacaxi ‘Vitória’, um dos projetos mais bem-sucedidos, aplicou mulching plástico e fertirrigação, permitindo reduzir em até 65% o uso de água na lavoura, além de garantir maior uniformidade e qualidade dos frutos. O mulching é uma técnica agrícola que consiste em cobrir o solo com um filme plástico para proteger as plantas e melhorar as condições de cultivo, criando uma barreira física entre o solo e a atmosfera, trazendo diversos benefícios.

Essas tecnologias estão sendo levadas ao campo por meio de capacitações e demonstrações práticas. Para a pesquisadora, “a adoção dessas práticas fortalece a capacidade de adaptação do agricultor e otimiza o uso dos recursos naturais, contribuindo para sistemas produtivos mais eficientes e sustentáveis”.

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Ciência e vivência, união de sucesso

No norte do Espírito Santo, o agricultor Johnny da Silva Rodrigues é exemplo de como a integração entre ciência e vivência no campo pode gerar inovação. Após atuar como bolsista técnico no laboratório de Fisiologia Vegetal do Incaper, ele passou a desenvolver em sua propriedade experimentos que unem tradição e tecnologia.

No Sítio Flecheiro, em São Mateus, Johnny cultiva pimenta-do-reino utilizando dois métodos inovadores: a enxertia com espécies nativas da Mata Atlântica e o tutoramento com árvores vivas, como moringa, nim e gliricídia. “Com o sombreamento proporcionado pelos tutores vivos, observamos a formação de microclimas que favorecem a polinização e reduzem os efeitos do calor excessivo. Quando usamos árvores como tutores, o sistema se equilibra sozinho. A natureza devolve os nutrientes e ajuda a manter a umidade. Os frutos ficam mais pesados e as perdas por abortamento diminuem”, relata.

O agricultor afirma que esse sistema, implantado com o apoio do Incaper, favorece a ciclagem de nutrientes e reduz a necessidade de irrigação. “A matéria orgânica formada pela poda das árvores melhora a retenção de umidade no solo, o que é essencial para uma cultura que depende tanto da umidade quanto a pimenta”, esclarece.

Ciência aplicada e boa gestão pública

As políticas públicas implementadas no Espírito Santo têm buscado integrar gestão ambiental, segurança hídrica e modernização agrícola. O Programa de Construção de Barragens, por exemplo, amplia a reserva de água em pequenas propriedades, reduzindo a pressão sobre rios e nascentes. Com apoio técnico do Incaper, os agricultores acessam crédito, elaboram projetos e recebem assistência para garantir a viabilidade das barragens em suas áreas.

Já o Programa Reflorestar avança na criação de corredores ecológicos e na restauração de áreas degradadas, promovendo a recarga hídrica e a biodiversidade. Combinado a isso, o Pedeag 4 articula essas iniciativas e orienta a pesquisa e a extensão rural a partir de uma lógica sistêmica: produzir mais, com menos impacto ambiental.

Dentro dessa abordagem integrada, os estudos coordenados pelo Incaper têm trazido ganhos concretos para culturas economicamente relevantes. Um dos exemplos é o projeto que avalia o uso de protetores solares naturais em lavouras de café e pimenta-do-reino. A proposta é mitigar os danos causados pela radiação solar e pelas ondas de calor, que têm afetado as floradas e a fixação dos frutos, especialmente no norte do estado, região mais quente e seca.

Outro foco importante é o uso de bioinsumos na indução de resistência ao estresse hídrico.

“A aplicação correta desses insumos permite que as plantas reajam melhor em períodos críticos, com maior eficiência no uso da água e dos nutrientes”, explica Sara Dousseau.

Na prática, essas inovações chegam ao campo pelas mãos de agricultores como Johnny da Silva Rodrigues. Além dos aspectos técnicos e dos ganhos em produtividade, ele defende que o agricultor seja um agente ativo nos projetos de pesquisa.

“Quem vive a lavoura diariamente percebe detalhes que às vezes passam despercebidos pelos pesquisadores. Quando o agricultor participa ativamente, a pesquisa ganha sentido prático e gera impacto real na produção”, afirma. A experiência de Johnny e de outros agricultores familiares mostra que é possível transformar desafios climáticos em oportunidades.

Em meio a esse cenário de inovação e adaptação, a produção agropecuária do Espírito Santo vem registrando avanços consistentes em diversos segmentos.

A fruticultura, por exemplo, consolida o estado como maior produtor e exportador nacional de mamão, entre outras culturas em constante crescimento, como banana, tomate e morango.

As especiarias também ganham protagonismo, em especial a pimenta-do-reino e o gengibre, que colocam o estado na liderança das exportações brasileiras desses produtos.

Na pecuária, os dados do primeiro trimestre de 2025 mostram alta no abate de aves e bovinos, além de um crescimento de 12,3% na produção de ovos, mantendo o estado como o quarto maior produtor nacional, de acordo com a Seag.

Esses resultados refletem o efeito direto da atuação integrada entre governo, instituições técnicas e produtores rurais.

Com estratégias multidisciplinares e foco na sustentabilidade, o Espírito Santo fortalece sua posição como referência nacional em inovação agropecuária e uso eficiente dos recursos naturais.

*Matéria publicada originalmente na revista ES Brasil nº 228, de agosto de 2025. Leia a edição completa do Agro aqui.

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