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Espírito Santo: da seca estrutural à construção de um futuro sustentável

Dados atualizados do Monitor de Secas confirmam que os impactos se estendem do curto ao longo prazo, agravados pelas mudanças climáticas

Por Luiz Fernando Schettino

Espírito Santo: da seca estrutural à construção de um futuro sustentável

A seca no Espírito Santo deixou de ser um fenômeno eventual e passou a ser uma realidade estrutural, com efeitos intensos e duradouros. A redução das chuvas, aliada aos históricos de usos indevidos dos solos, desmatamentos e utilização sem critérios dos recursos hídricos, compromete a recuperação de áreas degradadas e ameaça à segurança hídrica e alimentar, especialmente nas regiões norte e centro-norte do estado. Dados atualizados do Monitor de Secas (1) confirmam que os impactos se estendem do curto ao longo prazo, agravados pelas mudanças climáticas.

Desde a década de 1990, instituições públicas têm alertado para o avanço da erosão e o uso inadequado dos solos, ampliando o risco de desertificação em diversas áreas capixabas. Em 1995, sob nossa gestão, a então Secretaria Estadual para Assuntos do Meio Ambiente (SEAMA) lançou ações pioneiras para estruturar um plano estadual de combate à degradação ambiental em áreas críticas. O plano baseou-se em diagnósticos técnicos e em articulação com comunidades locais.

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Essa iniciativa impulsionou discussões interinstitucionais, contribuindo para a formulação do Plano Nacional de Combate à Desertificação. Ao aprofundar esse debate, o estado reconheceu a necessidade de estudos mais aprofundados, capazes de embasar ações preventivas e fortalecer políticas públicas voltadas à resiliência em territórios semiáridos. Buscou-se, assim, maior integração entre as ações estaduais e as diretrizes pensadas para outras regiões semiáridas do Brasil.

Em 2007, durante nossa atuação na Subsecretaria de Unidade de Pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), promovemos reuniões com o Instituto Nacional do Semiárido (INSA/MCTI), envolvendo lideranças capixabas. O objetivo era levantar subsídios técnicos sobre áreas impactadas pela seca e alinhar iniciativas locais ao Plano Diretor do INSA — documento que ainda hoje orienta políticas públicas voltadas ao semiárido brasileiro e territórios vulneráveis à desertificação.

Frente a essa trajetória, a adoção de práticas sustentáveis tornou-se urgente. A proteção de nascentes, a recomposição da mata ciliar e o aumento da cobertura florestal são estratégias eficazes. No Espírito Santo, técnicas como reflorestamento com espécies nativas, agroecologia e recuperação de solos degradados têm gerado resultados positivos. Produtores rurais que adotaram essas práticas relatam ganhos de produtividade e maior estabilidade hídrica, mesmo em tempos de escassez.

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Nesse contexto, o Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) exerce papel estratégico, desenvolvendo e difundindo práticas conservacionistas como plantio direto, recuperação de áreas degradadas e cobertura vegetal permanente. Alinhado ao Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação (PAB Brasil), o Incaper participa de ações em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e órgãos estaduais, promovendo capacitações e pesquisas adaptadas às condições locais. Por meio de projetos como o Plante Bem e o Solo Vivo, o instituto tem fortalecido a resiliência das comunidades rurais, incentivando a adoção de tecnologias de manejo sustentável dos solos e o uso eficiente da água, em regiões críticas do Espírito Santo (2, 3, 4, 5).

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A consolidação de políticas públicas integradas de manejo do solo e da água, aliada à educação ambiental e ao incentivo à pesquisa científica, é essencial para fortalecer a resiliência capixaba. Um exemplo inspirador é o projeto “Manutenção do Estoque Natural: Experiências Compartilhadas com a Comunidade Tradicional (Enec)” (6), coordenado por pesquisadores da UFES e da Fundação Espírito-Santense de Tecnologia (Fest), com apoio da Prefeitura de Aracruz e financiamento do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (FunBio).

Esse projeto, iniciado em janeiro de 2024, foca na restauração de aproximadamente 600 hectares de manguezais nos rios Piraquê-Açú e PiraquêMirim, envolvendo pescadores, marisqueiras e educadores ambientais. As ações participativas incluem capacitação da comunidade para o uso sustentável do manguezal como fonte alternativa de renda. Em 2025, o projeto foi reconhecido nacionalmente, conquistando o 1º lugar no Prêmio Consciência Ambiental Immensitá (7).

Outro destaque é o Programa Reflorestar (8), pelo qual o Espírito Santo lidera o ranking nacional de recuperação de áreas degradadas. Mais de 11,8 mil hectares foram restaurados e 13 mil preservados, beneficiando mais de 5.200 produtores rurais. Em 2025, o programa iniciou novo ciclo com investimentos de R$ 17 milhões, contemplando técnicas de conservação como barraginhas, terraços e biodigestores.

Na proteção das florestas, o estado intensificou a fiscalização com drones e imagens de satélite por meio do Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal do Espírito Santo (IDAF/ES), que realizou mais de 2.000 fiscalizações ambientais em 2023, com o objetivo de erradicar o desmatamento ilegal e ampliar a cobertura vegetal nativa (9).

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Na gestão hídrica, o Programa Águas Capixabas (10) prevê a implantação de 26.887 estruturas de conservação em mais de 4.300 propriedades rurais, incluindo cisternas e saneamento básico. Já a plataforma IQA, lançada pela Agência Estadual de Recursos Hídricos (Agerh) (11), realiza monitoramento da qualidade da água em 100 pontos de rios e córregos, promovendo transparência e ações baseadas em evidências.

No Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca (12), celebrado em 17 de junho, o lema de 2025 — “Restaurar a terra. Gerar oportunidades” — reforça a urgência de transformar áreas afetadas em territórios produtivos e sustentáveis. No Espírito Santo, essa transformação já está em curso, impulsionada pela memória institucional, pela inovação técnica e pelo compromisso com as futuras gerações.

Luiz Fernando Schettino é Engenheiro Florestal, Mestre e Doutor em Ciência Florestal, Advogado, Escritor e ex-Secretário Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos

Observação importante:

As fontes consultadas abaixo são parte do presente artigo, como segue:

  1. O Monitor de Secas é uma ferramenta oficial de acompanhamento contínuo da situação de seca no Brasil. Ele avalia mensalmente a intensidade, duração e impactos da seca em diferentes regiões, com base em indicadores climáticos e dados locais. Os resultados são apresentados em mapas interativos que classificam a severidade da seca em cinco níveis: fraca, moderada, grave, extrema e excepcional. Se pode acessar diretamente pelo site oficial do Monitor de Secas, mantido pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) (Monitor de Secas do Brasil)
  2. Incaper – Site oficial: Disponível em: (http://www.incaper.es.gov.br). Acesso em: julho de 2025.
  3. Projetos desenvolvidos pelo Incaper: Inclui iniciativas voltadas ao manejo sustentável dos solos, como *Plante Bem* e *Solo Vivo*. Disponível em: (https://incaper.es.gov.br/projetos-2). Acesso em: julho de 2025.
  4. Trabalhos de conservação do solo: Descreve práticas aplicadas pelo Incaper, como plantio direto na palha, sistemas agroflorestais e recuperação de áreas degradadas. Disponível em: (https://incaper.es.gov.br/Not%C3%ADcia/conheca-os-trabalhos-deconservacao-do-solo-desenvolvidos-pelo-incaper). Acesso em: julho de 2025.
  5. Uso de espécies vegetais como cobertura no sistema de plantio direto: Estudo técnico publicado na Biblioteca Digital do Incaper. Pesquisa disponível via: (https://bing.com/search?q=Incaper+pr%c3%a1ticas+conservacionistas+plantio +direto). Acesso em: julho de 2025.
  6. O projeto’ Manutenção do Estoque Natural: Experiências Compartilhadas com a Comunidade Tradicional (Enec”), foi desenvolvido por pesquisadores da Ufes, obteve o primeiro lugar nacional no edital do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), concorrendo com outras 30 propostas. O trabalho, que teve início em 2024, prevê a restauração dos manguezais mortos nos rios Piraquê-Açú e Mirim, em parceria com a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Aracruz. (Projeto de restauração de manguezais capixabas é contemplado em edital nacional | Universidade Federal do Espírito Santo; https://www.funbio.org.br/com-apoio-de-r-473-mi-bndes-e-petrobrasanunciam-projetos-para-recuperar-manguezais-e-restingas/)
  7. Esse projeto de recuperação de manguezal, em face de sua importância conquistou o 1º lugar no Prêmio Consciência Ambiental 2025. (Projeto de recuperação de manguezal conquista 1º lugar no Prêmio Consciência Ambiental 2025 | Universidade Federal do Espírito Santo)
  8. Programa Reflorestar: O novo ciclo de 2025 com R$ 17 milhões em investimentos e os dados de restauração e preservação estão detalhados no site oficial da SEAMA e na notícia do lançamento do novo ciclo. (Governo ES – Programa ReflorestarSEAMA – Seama lança novo Ciclo e o edital do Programa Reflorestar)
  9. Fiscalizações ambientais do Idaf: Embora os dados exatos de 2023 não estejam em destaque nas páginas públicas, o site oficial do Idaf é a fonte primária para acompanhar relatórios e ações do órgão. (Idaf)
  10. Programa Águas Capixabas: A meta de 26.887 estruturas e o investimento em conservação hídrica estão descritos na reportagem do Governo do ES sobre os investimentos e na Lei nº 12.372, de 19 de março de 2025 , que Institui o Programa de consolidação de iniciativas de conservação e revitalização de bacias e corpos hídricos no estado do Espírito Santo – Programa Águas Capixabas, e dá outras providências. (Governo ES – Governo do Estado anuncia novos investimentos em alusão ao dia Mundial da Água ; LEI123722025)
  11. Plataforma IQA da Agerh: Os dados de monitoramento da qualidade da água em 100 pontos estão disponíveis diretamente na Plataforma IQA-ES, mantida pela Agerh. A referida plataforma dá informações sobre a qualidade das águas do estado do Espírito Santo, sendo um sistema administrado e operado pela Agerh que disponibiliza os dados históricos e atuais da qualidade das águas, obtidos através do Programa QualiRios ES. (IQA-ES)
  12. O Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, celebrado em 17 de junho de 2025, tem como lema oficial: “Restaurar a Terra. Gerar Oportunidades” — uma chamada global da ONU para acelerar ações de restauração de solos e enfrentamento da escassez hídrica. (No Dia Mundial da Desertificação e da Seca, ONU pede ação rápida de combate | ONU News; DDD2025_PR_PR.pdf; Dia de Combate à Desertificação e à Seca 2025)
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