
Concurso de projetos em Helsinque mostra caminho para eficiência e inovação na gestão pública brasileira por meio do design estratégico
Por Letícia Deps
Pelo segundo ano consecutivo sou convidada pela Universidade Aalto, na Finlândia, para o Final Show do programa Design for Government (DfG). O convte este ano acendeu um alerta sobre a forma como pensamos o ecossistema público. Sediado na Prefeitura de Helsinque, o evento expôs soluções cocriadas por designers, cientistas e servidores para desafios complexos: adaptação climática na habitação e caminhos inclusivos na saúde pública. Mais do que uma agenda institucional, esse convite provoca uma reflexão urgente: por que a gestão pública brasileira ainda ignora o poder dos concursos de projetos e do design estratégico?
Países nórdicos como a Finlândia já entenderam que problemas públicos complexos não se resolvem apenas com canetadas burocráticas ou licitações tradicionais de “menor preço” — que, frequentemente, entregam o menor valor intelectual. Eles utilizam o design e os concursos de ideias como infraestrutura de performance humana e urbana. Abre-se o desafio para a inteligência coletiva; seleciona-se a melhor solução, e não o processo mais engessado.
No Brasil, o instrumento do concurso público de projetos — previsto em lei e historicamente vitorioso em marcos que vão de Brasília ao MASP — tornou-se um recurso negligenciado, quase folclórico na administração do dia a dia. Quando ocorre, costuma ser restrito a grandes monumentos arquitetônicos. É um erro crasso de perspectiva.
O concurso de projetos e as maratonas de inovação aberta deveriam ser ferramentas cotidianas de governos para desenhar serviços, otimizar fluxos de atendimento e planejar intervenções urbanas sensoriais. O concurso oxigena a máquina pública: atrai mentes brilhantes que estão fora do Estado, democratiza o acesso a contratos, garante transparência e, acima de tudo, traz respostas surpreendentes para problemas crônicos.
Imagine o impacto se nossos municípios lançassem concursos de ideias para redesenhar a experiência de usuários em hospitais públicos, mitigando o estresse cognitivo através do design focado nas pessoas. Ou se usássemos essa ferramenta para criar soluções locais e ágeis de resiliência climática para as nossas periferias.
A experiência de Helsinque nos mostra que governar através do design não é um luxo estético; é eficiência prática e responsabilidade fiscal. Para o Brasil avançar, a gestão pública precisa parar de temer o novo e começar a provocar a inteligência do mercado. O concurso não é um custo; é o caminho mais inteligente para contratar inteligência.
Letícia Deps é Neuroarquiteta – membro da Academia Norte Americana de Neurocîência aplicada a Arquitetura- ANFA nos capítulos San Diego-EUA e Brasil

