
Cuidar da saúde bucal deve ser entendido como parte da prevenção de doenças mais graves
Por Marco Homero de Sá
Quando foi a última vez que você examinou a sua boca diante do espelho? Normalmente, na correria cotidiana, é comum escovar os dentes automaticamente e seguir com as tarefas diárias, sem dar atenção especial ao aspecto da boca. Também não é raro que as pessoas ignorem alguns sinais como dores ou sangramentos durante a escovação.
No entanto, é nessa rotina corrida e com pouca atenção aos detalhes da cavidade bucal, que pequenas feridas e sinais que podem ser sugestivos do câncer de boca são ignorados.
Estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca) indicam que o Brasil deverá registrar cerca de 17.190 novos casos de câncer de cavidade oral por ano entre 2026 e 2028, sendo mais de 12 mil em homens e quase 5 mil em mulheres.
É comum que o diagnóstico da doença aconteça em fases avançadas, o que torna o tratamento mais complexo e impacta diretamente as chances de cura.
Entre os fatores de risco mais conhecidos para o desenvolvimento desse tipo de tumor estão o tabagismo e o consumo frequente de bebidas alcoólicas, que expõem a mucosa oral a substâncias carcinogênicas, que podem provocar alterações celulares.
Mas há um aspecto que muitas vezes recebe menos atenção do que deveria: a saúde bucal.
Restos alimentares, acúmulo de placa bacteriana, inflamações gengivais e infecções recorrentes podem alterar o equilíbrio natural da mucosa e favorecer o surgimento de lesões que precisam ser investigadas. Embora nem toda alteração signifique um câncer, algumas podem ser consideradas lesões potencialmente malignas.
É nesse contexto que o dentista exerce um papel decisivo na prevenção.
A consulta odontológica regular não serve apenas para tratar cáries ou realizar limpezas. Durante o exame clínico, o profissional avalia toda a cavidade oral, língua, gengivas, mucosa, bochechas e palato, e pode identificar sinais que muitas vezes passam despercebidos pelo paciente.
O dentista é um profissional indispensável quando falamos de câncer bucal, pois costuma ser o primeiro a notar eventuais problemas e encaminhar o paciente para os especialistas que podem ajudá-lo em caso de doença maligna, como o cirurgião de cabeça e pescoço.
Feridas persistentes, manchas brancas ou avermelhadas e alterações na textura dos tecidos são exemplos de achados que podem indicar a necessidade de investigação especializada.
Na hipótese de o diagnóstico oncológico ser confirmado, a detecção em estágio inicial aumenta de forma significativa as chances de cura e reduz o impacto do tratamento na qualidade de vida do paciente.
Por isso, cuidar da saúde bucal deve ser entendido como parte da prevenção de doenças mais graves. Escovar os dentes após as refeições, usar fio dental regularmente, reduzir o consumo de álcool, evitar o tabagismo e manter consultas periódicas com o dentista são atitudes simples, mas que têm um impacto positivo real na saúde.
Marco Homero de Sá é cirurgião de cabeça e pescoço do Instituto Tireoide

