Estudo da Ufes investiga uso do olfato canino e de tecnologias moleculares para rastrear câncer, tuberculose e esquistossomose
Por Nathanael Rodor
Uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) quer explorar um aliado inusitado no diagnóstico precoce de doenças: o olfato dos cães. Coordenado pelo professor Carlos Graeff, do Centro de Ciências da Saúde, o estudo busca criar métodos de rastreamento populacional capazes de identificar sinais de câncer, tuberculose e esquistossomose ainda nos estágios iniciais, a partir da detecção de padrões moleculares presentes em amostras biológicas. O projeto recebeu cerca de R$ 559 mil por meio de edital da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes).
A iniciativa combina duas abordagens inovadoras: o treinamento de cães farejadores para reconhecer alterações químicas associadas a determinadas doenças e o uso da espectrometria de infravermelho próximo (NIRS), tecnologia capaz de identificar padrões moleculares em materiais biológicos. “Historicamente, os métodos diagnósticos procuram um alvo específico, como uma célula cancerosa ou determinada molécula. O diagnóstico por detecção de padrões segue outra lógica: ele observa conjuntos de sinais e comportamentos químicos. Consideramos que esse pode ser um caminho muito promissor para o futuro da medicina”, explica Graeff.
De acordo com o professor, os cães serão treinados a partir da exposição a amostras de materiais biológicos, como urina e ar expirado, de pessoas com e sem as doenças investigadas. Sempre que identificarem corretamente uma amostra positiva, receberão recompensas, como alimento ou brinquedos favoritos, criando um condicionamento associado ao reconhecimento dos padrões químicos. Segundo o pesquisador, embora não exista uma raça ideal, animais de porte médio ou grande, com focinho mais alongado e perfil mais brincalhão tendem a apresentar melhor desempenho. Em geral, o período de treinamento varia entre dois e três meses, com avaliações periódicas antes da realização dos testes finais mais rigorosos.
A proposta parte da hipótese de que doenças deixam rastros químicos detectáveis até mesmo em amostras simples. Caso os resultados sejam positivos, a tecnologia poderá ser utilizada como ferramenta de triagem em larga escala, ajudando a identificar precocemente pacientes que precisariam ser encaminhados para exames confirmatórios. “A primeira grande aplicação é na saúde pública. A ideia é realizar uma espécie de varredura populacional para identificar, o mais cedo possível, pessoas com câncer ou outras doenças”, afirma Graeff. Para validar cientificamente o método, o estudo utilizará amostras previamente caracterizadas e armazenadas sob condições rigorosas, enquanto o desempenho dos cães será medido pela taxa de acerto na identificação das amostras positivas.
Além do potencial de alta sensibilidade, o método também pode representar uma alternativa de menor custo para o rastreamento populacional. “Estamos falando de uma metodologia altamente sensível e potencialmente de baixo custo. Se conseguirmos chegar à aplicação prática, poderá ser uma transformação importante”, destaca o pesquisador. Segundo ele, há perspectiva de futura incorporação da tecnologia ao Sistema Único de Saúde (SUS), desde que os resultados sejam confirmados em avaliações rigorosas e aprovados pelos órgãos competentes, como o Ministério da Saúde e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).
O projeto reúne pesquisadores da Ufes, de universidades brasileiras e instituições da Austrália e da Nova Zelândia, incluindo a University of Waikato, referência internacional em estudos com cães farejadores no diagnóstico de doenças. Para Graeff, o apoio da Fapes foi decisivo para tirar a ideia do papel, mas os desafios para transformá-la em ferramenta de saúde pública ainda incluem a manutenção do financiamento, a construção de estruturas adequadas para expandir os treinamentos, a continuidade das avaliações dos cães e a coleta permanente de novas amostras biológicas. “Queremos que o Espírito Santo seja pioneiro não apenas na pesquisa, mas também na aplicação dessas tecnologias em benefício da população”, conclui.


