
Na primeira hora, o desespero era físico. Na segunda, começou a adaptação humana. Na terceira hora, pensei na vida. Na quarta hora, já não sentia falta do celular
Por André Gomyde
O drama começou de forma banal, como começam as grandes tragédias modernas: meu iPhone morreu. Não foi uma morte digna, com despedidas e últimas mensagens. Foi súbita. A placa queimou em plena viagem de trabalho, dessas que a gente faz achando que controla tudo, inclusive a tecnologia. Controle nenhum. O celular apagou como uma vela num parabéns infantil.
O problema não era só ficar incomunicável. Era ficar sem mapa, sem música, sem mensagens, sem aquele grupo que nunca fala nada útil, mas cuja ausência causa um vazio existencial. A viagem era de carro. A volta, quatro horas. Quatro horas de puro pânico urbano.
Nos primeiros dez minutos tentei ressuscitar o aparelho como quem faz massagem cardíaca em eletrodoméstico. Nada. Nos vinte seguintes, procurei carregador, tomada imaginária, energia espiritual. Pensei até em prometer nunca mais reclamar de atualização automática. Inútil.
Sem WhatsApp, não havia como avisar que eu estava atrasado. Sem aplicativo de trânsito, qualquer rua parecia um golpe do destino. Sem música, o silêncio do carro ficou constrangedor. Cheguei a pedir desculpa mentalmente ao rádio, que ignorei por anos.
Percebi então o tamanho da invasão. As redes sociais não entraram na nossa vida pela porta. Arrombaram a janela. A música não mora mais no ouvido, mora no streaming. A conversa não acontece mais, pisca. E o pensamento… bem, esse anda terceirizado.
Na primeira hora, o desespero era físico. Suor frio, olhar inquieto, sensação de abandono tecnológico. Na segunda, começou o estranho fenômeno da adaptação humana. Passei a observar placas, árvores, pessoas atravessando a rua. Reparei que o céu existe mesmo sem filtro.
Na terceira hora, pensei na vida. Coisa perigosa. Lembrei de decisões, afetos, escolhas adiadas, mensagens nunca enviadas. Descobri que dentro da gente há um aplicativo poderoso chamado silêncio, que quase ninguém abre porque não vem pré-instalado.
Na quarta hora, já não sentia falta do telefone. Quase lamentei quando vi o prédio de casa. A mente estava mais leve, o peito menos apertado. Nenhuma notificação competia com meus próprios pensamentos.
Talvez devêssemos queimar a placa do celular de vez em quando. Não literalmente, claro. Mas desligar. Sumir. Ficar fora de área. A descoberta de coisas dentro da gente é fantástica. E não consome bateria.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

