O mosquitinho não tem partido, não tem ideologia, não tem orçamento. Mas tem insistência. E, às vezes, insistência é mais poderosa que manchete
Por André Gomyde
Você senta na padaria para comer um misto quente. Início da tarde. Almoço tardio. A padaria está quase vazia, o que é uma raridade urbana e um convite à filosofia. O ambiente tem aquela paz de lugar que já foi agitado, mas agora decidiu respirar. O café sai fumegando, o queijo derretendo, o pão levemente tostado. Tudo perfeito para pensar na vida.
As notícias do dia, entretanto, não pensam em você. Elas continuam falando de um financiamento cinematográfico que custou mais que o filme vencedor do Oscar. Especialistas opinam, números voam, gráficos aparecem na tela do celular. É o tipo de informação que faz a gente mastigar mais devagar, tentando entender como um roteiro pode custar tanto e ainda assim precisar de explicação.
Mas no meio dessa tentativa de reflexão surge ele. O mosquitinho.
Pequeno. Persistente. Determinado. Um verdadeiro comentarista de ouvido. Ele não tem opinião sobre cinema, nem sobre orçamento público, nem sobre nada. Seu único compromisso é atravessar o espaço aéreo da padaria e fazer um zumbido estratégico a cada trinta segundos, sempre no momento exato em que você começa a concluir um pensamento.
Você espanta. Ele volta. Você abana o guardanapo. Ele reaparece. Você tenta ignorar. Ele percebe a vulnerabilidade e aumenta a frequência.
É curioso como algo tão minúsculo consegue competir com escândalos de proporções nacionais. O mosquitinho não tem partido, não tem ideologia, não tem orçamento. Mas tem insistência. E, às vezes, insistência é mais poderosa que manchete.
Enquanto você tenta organizar ideias sobre o custo do cinema, sobre prioridades culturais, sobre o mundo que parece gastar energia em discussões intermináveis, o mosquitinho insiste em lembrar que existe também o aqui e agora. Existe o detalhe. Existe o incômodo imediato. Existe o som agudo que interrompe qualquer raciocínio profundo.
E então surge a dúvida existencial do dia: o que perturba mais?
O mosquitinho, que pode ser resolvido com um movimento elegante de mão e algum perdão ambiental? Ou os escândalos que aparecem, desaparecem e reaparecem como temporadas de série, sempre com novos episódios e raramente com final?
O mosquitinho é irritante, mas previsível. Ele voa, zune e eventualmente vai embora. Já os grandes problemas parecem ter roteiro contínuo, sem pausa para publicidade.
Talvez a diferença seja essa: o mosquitinho incomoda o ouvido; o noticiário incomoda a consciência.
No fim, o misto quente esfria um pouco, o mosquitinho encontra outro alvo, e você percebe que a reflexão precisa sobreviver ao ruído. Porque, se não conseguimos lidar com um pequeno zumbido na padaria, como lidar com o barulho do mundo?
O misto quente termina. O mosquitinho também. Mas as perguntas continuam. E, curiosamente, isso talvez seja um bom sinal.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

