
Diógenes sentou-se na varanda de casa. Não por filosofia profunda, mas porque a internet caiu. Aquela queda repentina que faz o ser humano olhar para o teto como quem descobre que existe um universo além do roteador
Por André Gomyde
Diógenes é um sujeito que anda com pressa. Não porque queira, mas porque parece que o mundo decidiu que todo mundo tem que andar assim. Ele acorda cedo, responde mensagens antes mesmo de escovar os dentes, corre para compromissos profissionais, resolve coisas urgentes que ontem eram importantíssimas e amanhã ninguém mais lembrará que existiram.
No meio da manhã, o celular vibra. Notícia nova. Mais uma atualização sobre uma guerra em algum lugar do planeta. Tanques, bombas, análises, especialistas, mapas coloridos explicando o que ninguém entende direito. Diógenes lê tudo com a mesma sensação de quem tenta compreender o manual de um eletrodoméstico que nunca vai usar.
Ele suspira. Fecha o aplicativo. Abre outro. Responde alguém. Resolve um problema. Cria mais dois. Quando percebe, já é noite.
Foi então que Diógenes teve uma revelação doméstica. Sentou-se na varanda de casa. Não por filosofia profunda, mas porque a internet caiu. Aquela queda repentina que faz o ser humano olhar para o teto como quem descobre que existe um universo além do roteador.
Sem internet, sem notificações, sem guerra transmitida em tempo real, ele ficou ali. Sentado. E aconteceu algo extraordinário. O vizinho apareceu.
— Boa noite.
Diógenes respondeu meio desconfiado, como quem encontra um animal raro no quintal.
— Boa noite.
Começaram a conversar. Nada importante. Nada urgente. Nada que virasse manchete. Falaram do calor, de uma árvore que estava crescendo torta, de um cachorro que insiste em latir para a lua como se tivesse questões pessoais com o satélite.
Conversaram dez minutos. Depois quinze. Quando deram por si, estavam rindo.
Diógenes lembrou então dos avós. Eles tinham uma habilidade curiosa: sabiam sentar na varanda. Não era uma atividade secundária, era quase uma profissão. Sentavam, olhavam o movimento da rua, comentavam o clima, ofereciam café, trocavam histórias.
O mundo não era mais simples naquela época. Mas parecia menos barulhento.
Hoje temos acesso a tudo: notícias, conflitos, opiniões, catástrofes e teorias sobre todas elas. O planeta inteiro cabe dentro do bolso de Diógenes. E, ainda assim, às vezes parece que perdemos justamente aquilo que cabia na varanda.
Talvez o problema não seja o mundo ter ficado grande demais.
Talvez seja a gente ter esquecido de ficar pequeno por alguns minutos.
Diógenes agora tenta repetir o ritual. De vez em quando desliga o telefone, vai para a varanda e espera. Se o vizinho aparecer, ótimo. Se não aparecer, tudo bem.
A árvore torta continua crescendo. E isso, por enquanto, já é uma boa conversa.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

