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Vixe, deu ghosting!

Vixe, deu ghosting!

Ghosting: quando uma pessoa some da vida da outra como se tivesse sido abduzida por um disco voador emocional. Não atende telefone, não responde mensagem, não explica nada

Por André Gomyde

Outro dia ouvi um sujeito mais novo explicar, com toda a naturalidade do mundo, que estava “dando um tempo de comunicação” com a moça com quem saía havia três meses. Não brigaram, não discutiram, não houve traição nem quebra de confiança. Ele simplesmente decidiu desaparecer.

— Como assim desaparecer? — perguntei.

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— Ghosting — disse ele, com ar técnico, como quem anuncia um novo modelo de liquidificador.

Aprendi então que ghosting é quando uma pessoa some da vida da outra como se tivesse sido abduzida por um disco voador emocional. Não atende telefone, não responde mensagem, não explica nada. Some. Evapora. Desaparece da narrativa. É uma espécie de fantasma sentimental.

Nos velhos tempos, quando alguém queria terminar um namoro, precisava de coragem, um banco de praça e uma frase clássica: “Precisamos conversar”. A conversa podia durar horas, terminar em lágrimas, reconciliação ou em dois sorvetes de chocolate consumidos em silêncio. Mas havia conversa.

Hoje não. Hoje a pessoa vira espectro digital.

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Pelo que entendi, a lógica moderna é preservar o “espaço”. Cada um precisa do seu espaço, do seu tempo, do seu processo, da sua individualidade, do seu alinhamento energético, do seu mapa astral e, se possível, do seu próprio CEP emocional. O curioso é que, com tanto espaço, ninguém mais se encontra.

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Outro dia uma moça me explicou que, se você demonstra muito interesse, vira carente. E carência, segundo a nova sociologia afetiva, corta o encanto. Ou, em linguagem científica contemporânea: corta o tesão. Ou seja, gostar muito virou problema.

Se você manda mensagem perguntando se a pessoa chegou bem em casa, já corre o risco de parecer emocionalmente dependente. Se demonstra saudade, então, pronto: diagnóstico imediato de intensidade excessiva.

Resultado: todo mundo tentando parecer tranquilo demais. Ninguém pode gostar muito. Ninguém pode precisar muito. Ninguém pode esperar muito.

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E assim seguimos, uma multidão de gente emocionalmente autossuficiente… e estranhamente sozinha.

Talvez por isso os consultórios de psicologia estejam cheios. Pessoas tentando entender por que se sentem tão isoladas em um mundo com bilhões de conexões digitais.

Antigamente relacionamento era outra engenharia. Tinha defeitos, claro. Muitos. Mas também tinha uma palavra curiosa chamada entrega. Entrega significava confiar. Significava dividir problemas. Significava rir junto das pequenas tragédias domésticas. Era uma parceria meio bagunçada, mas muito humana.

Talvez o que a nova geração precise aprender não seja como proteger tanto o próprio espaço, mas como construir um espaço comum. Porque amor, no fundo, não é um condomínio de apartamentos individuais. É mais parecido com uma casa onde duas pessoas, às vezes meio perdidas, resolvem morar juntas dentro da mesma história.

E o curioso é que, quando isso acontece, ninguém precisa desaparecer como fantasma. No máximo, alguém some por cinco minutos… para fazer café.

André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

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