
O dia 22 de abril nos lembra que o planeta é finito e que a água está ameaçada. Se não mudarmos nossa relação com a natureza, enfrentaremos o desaparecimento das espécies
Por Luiz Fernando Schettino
O dia 22 de abril carrega uma simbologia poderosa: celebra-se o Dia Internacional da Terra, o Dia Mundial da Água e, ao mesmo tempo, recorda-se o descobrimento do Brasil. Essa coincidência nos obriga a refletir sobre a trajetória civilizatória mundial e brasileira, marcada por um modelo de progresso que, desde os tempos coloniais, explorou de forma predatória tanto os recursos naturais quanto os próprios seres humanos. A chegada dos portugueses em 1500 inaugurou um ciclo de apropriação que se estendeu por séculos, transformando o território em fonte inesgotável de riquezas: do pau-brasil ao ouro, do café ao petróleo, e hoje a Amazônia. Essa lógica de exploração moldou desigualdades sociais profundas e deixou cicatrizes ambientais que ainda se ampliam.
No plano global, a Revolução Industrial e as sucessivas ondas de avanço tecnológico consolidaram um modelo de desenvolvimento baseado no consumo ilimitado e na exploração intensiva da natureza. As guerras comerciais e reais, travadas ao longo da história, reforçaram esse paradigma ao transformar territórios e populações em instrumentos de poder, ampliando desigualdades e acelerando a degradação ambiental. O resultado é um planeta exaurido, com ecossistemas fragilizados e sociedades polarizadas. Como alerta o climatologista Carlos Nobre, já ultrapassamos diversos limites planetários e vivemos uma emergência climática. Augusto Ruschi, pioneiro na defesa da biodiversidade brasileira, advertia sobre a destruição da Mata Atlântica e a perda irreparável de espécies. O Cacique Seattle, em sua célebre carta, lembrava que a Terra não pertence ao homem, mas o homem pertence à Terra. E Ailton Krenak, pensador e líder indígena, nos convoca a “adiar o fim do mundo” por meio da reconexão com a natureza e da valorização dos saberes ancestrais, lembrando que não há humanidade possível sem respeito à Terra que nos sustenta.
As consequências dessa saga são visíveis: desmatamento acelerado, poluição, perda de biodiversidade, crises hídricas, redução da produção agropecuária em muitas áreas pelo uso incorreto ou excessivo do solo e da água, além da destruição das matas e áreas naturais ao seu redor. Esse processo leva à necessidade crescente de uso de agroquímicos, trazendo impactos severos sobre os ecossistemas e sobre os mais vulneráveis: trabalhadores, comunidades indígenas, ribeirinhas e populações pobres, que sofrem diretamente em seu cotidiano e são os primeiros e mais intensamente atingidos pelos efeitos das mudanças climáticas.
Como bem disse Guimarães Rosa: “A água de boa qualidade é como a saúde ou a liberdade: só tem valor quando acaba.” Essa lembrança nos alerta para o risco de perder o essencial por descuido e ganância, e reforça a urgência de preservar o que ainda nos resta. A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) destaca que a segurança hídrica é condição fundamental para o desenvolvimento sustentável do país, atuando para garantir o uso racional da água, minimizar os efeitos de secas e inundações e promover o acesso equitativo a esse recurso vital. Em sintonia, o cientista brasileiro José Galizia Tundisi, referência internacional em limnologia, afirma que a água é o eixo central da sustentabilidade e da sobrevivência humana, e que sem políticas integradas e cooperação global, o futuro da humanidade estará comprometido. Nesse mesmo espírito, a bióloga norte-americana Rachel Carson, em sua obra Primavera Silenciosa, já alertava que o uso indiscriminado de químicos e pesticidas contaminava as águas e ameaçava a própria base da vida. Sua mensagem permanece atual: sem respeito aos ciclos naturais e sem cuidado com a água, não há futuro possível.
Os extremos climáticos estão se intensificando, trazendo secas prolongadas, enchentes devastadoras e perdas materiais e humanas incalculáveis, como se viu no Rio Grande do Sul em 2023 e 2024, e no Espírito Santo em 2013, 2024, 2025 e 2026, além de boa parte do Sudeste. Soma-se a isso a polarização política e social, que tem dificultado o diálogo e os consensos necessários. Porém, a realidade impõe uma necessidade urgente: mudar os rumos do modelo atual de desenvolvimento. Sem cooperação internacional e solidariedade entre povos, não haverá saída, e a humanidade pagará cada vez mais caro pelos impactos do descaso para com a natureza. As guerras, sejam comerciais ou armadas, apenas agravam a crise e desviam recursos que poderiam ser investidos em soluções sustentáveis e na melhoria da qualidade de vida.
Como já registrava Pero Vaz de Caminha em 1500, ao descrever o Brasil recém-descoberto: “Águas são muitas; infinitas. Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo.” Essa percepção inicial reforça que o potencial das terras brasileiras sempre esteve ligado à abundância de água e de vida. O desafio contemporâneo é justamente não repetir os erros da exploração predatória, mas cuidar desse patrimônio para que continue a sustentar a humanidade. Décadas atrás, o Clube de Roma, formado por cientistas e economistas de diversos países, publicou o relatório Os Limites do Crescimento (1972), que advertia que o modelo de desenvolvimento baseado no consumo ilimitado levaria ao colapso ambiental e social. Essa previsão mostra que a crise atual não é surpresa: é consequência de escolhas equivocadas que ignoraram os limites do planeta. Hoje, mais do que nunca, precisamos transformar esse alerta em ação concreta.
Enfim, o dia 22 de abril nos lembra que o planeta é finito e que a água, base da vida e do desenvolvimento, está ameaçada. Se não mudarmos radicalmente nossa relação com a natureza, enfrentaremos o desaparecimento de grande parte das espécies, crises hídricas generalizadas e uma redução drástica da qualidade de vida. A sobrevivência da humanidade depende de uma escolha coletiva: abandonar a lógica predatória e construir um caminho de cooperação, justiça socioambiental e respeito aos limites da Terra. Somente assim poderemos garantir um futuro digno para as próximas gerações
Luiz Fernando Schettino é Engenheiro Florestal – Mestre e Doutor em Ciência Florestal, Advogado, Escritor e ex-secretário Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos – Seama/ES

