
A nutrologia amplia a perspectiva terapêutica ao atuar na raiz da inflamação, contribuindo para redução da dor, melhor resposta ao tratamento hormonal e maior estabilidade clínica
Por Mariana Comério
A endometriose é uma doença inflamatória crônica, dependente de estrogênio, que compromete significativamente a qualidade de vida de milhões de mulheres. Dores pélvicas, cólicas menstruais (muitas vezes incapacitantes), alterações intestinais, fadiga e infertilidade fazem parte de um quadro complexo, que frequentemente exige acompanhamento médico contínuo e multidisciplinar.
Dentro da campanha Março Amarelo, que alerta sobre a endometriose, destaca-se a importância de abordagens integrativas para o controle da doença. Entre os pilares do tratamento, a nutrologia ganha relevância ao atuar na redução da inflamação, no equilíbrio hormonal e na correção de deficiências nutricionais, oferecendo suporte para melhorar a qualidade de vida das mulheres afetadas.
Entre os principais eixos de atuação estão estratégias alimentares anti-inflamatórias, que combatem a inflamação, diretamente ligada à dor e a outros sintomas da endometriose. Priorizar alimentos naturais, ricos em antioxidantes, fibras e ômega-3, e reduzir ultraprocessados, açúcares e gorduras inflamatórias são hábitos que contribuem para um ambiente metabólico menos favorável à progressão da doença.
O equilíbrio hormonal e o metabolismo do estrogênio também são fundamentais. O intestino desempenha papel central na metabolização e excreção do hormônio, que estimula a atividade e manutenção das lesões.
Além disso, o tecido endometrial pode crescer fora do útero, e quando isso ocorre a endometriose afeta outros órgãos como intestino, bexiga e ureter, tornando o quadro ainda mais complexo. Alterações na microbiota podem aumentar a recirculação hormonal, intensificando o estímulo endometriótico. A correção do ambiente intestinal, aliada à avaliação individualizada do perfil hormonal, é essencial na estratégia terapêutica.
Outro cuidado importante é a correção de deficiências nutricionais. Vitamina D, magnésio, vitaminas do complexo B e ômega-3 auxiliam na regulação imunológica e do controle da dor. A identificação e reposição dessas deficiências reduzem vulnerabilidades metabólicas que prolongam inflamação. Em situações específicas, terapias injetáveis podem otimizar a reposição de nutrientes, e implantes hormonais, criteriosamente indicados, ajudam no ajuste do estímulo estrogênico, compondo uma estratégia integrada de controle da doença.
A dor da endometriose não deve ser tratada apenas como evento isolado, pois ela reflete um ambiente inflamatório ativo. A nutrologia amplia a perspectiva terapêutica ao atuar na raiz da inflamação, contribuindo para redução da dor, melhor resposta ao tratamento hormonal e maior estabilidade clínica.
A doença exige abordagem estruturada e multidisciplinar. Ginecologia, nutrologia, atividade física orientada, suporte terapêutico, manejo do estresse e, quando necessário, intervenção cirúrgica não competem entre si, mas se complementam.
Neste Mês da Mulher e da campanha de conscientização da endometriose, é fundamental reforçar o compromisso com a saúde feminina. Reconhecer a endometriose como doença sistêmica, que exige escuta qualificada e tratamento estruturado, é também uma forma de respeito às pacientes que convivem com essa condição. Promover informação, diagnóstico precoce e abordagem baseada em pilares complementares valoriza qualidade de vida, autonomia e bem-estar, reconhecendo que dor não deve ser normalizada e que cada mulher merece viver com equilíbrio, dignidade e plenitude.
Mariana Comério é médica nutróloga e proprietária da Mariana Comério Clínica

