
O desafio é construir um desenvolvimento sustentável, inclusivo e inovador, capaz de garantir qualidade de vida para todos, preservar os recursos naturais e proteger a biodiversidade
Por Luiz Fernando Schettino
O Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado no último dia 5, não deve ser apenas uma data simbólica, mas um chamado à ação diante da maior ameaça que a humanidade enfrenta: as mudanças climáticas. Para compreender a gravidade da situação, é preciso olhar para fenômenos naturais como o El Niño e a La Niña, que juntos compõem o ciclo conhecido como ENOS (El Niño–Oscilação Sul). Em condições normais, o Oceano Pacífico Equatorial mantém temperaturas estáveis, próximas da média climatológica, e os ventos alísios sopram de forma equilibrada, garantindo padrões regulares de chuva e temperatura.
Quando há aquecimento acima de +0,5 °C em relação à média, surge o El Niño, que altera os ventos e a circulação atmosférica, provocando secas em algumas regiões e chuvas intensas em outras. Já a La Niña ocorre quando há resfriamento abaixo de -0,5 °C, intensificando os ventos e redistribuindo calor e umidade. Nos episódios de “super El Niño”, quando a anomalia ultrapassa +2 °C e pode chegar a +3 °C, os impactos se tornam devastadores: no Brasil, o Norte e o Nordeste enfrentam secas prolongadas e risco de queimadas, o Sul sofre com enchentes e excesso de chuvas, enquanto o Sudeste e o Centro-Oeste convivem com ondas de calor e irregularidade hídrica. O Espírito Santo, em particular, tem sentido diretamente esses efeitos, com crises hídricas, prejuízos agrícolas e vulnerabilidade crescente de suas cidades e áreas rurais, revelando a necessidade urgente de adaptação e resiliência.
O estado, entretanto, também é exemplo de resposta positiva. O Programa Reflorestar tornou-se referência nacional ao recuperar mais de 13 mil hectares de áreas degradadas e mobilizar milhares de agricultores em práticas sustentáveis. O Espírito Santo foi pioneiro na implementação de pagamento por serviços ambientais (PSA), valorizando produtores rurais que conservam florestas e recursos hídricos. Além disso, iniciativas como o Programa Cidades Resilientes, o Fundo de Descarbonização e a eletrificação da frota do Transcol demonstram compromisso com a transição energética e a adaptação climática. A educação ambiental é promovida de forma integrada por órgãos estaduais como o IEMA, por secretarias municipais, pela sociedade civil organizada e pelo meio empresarial, mostrando que a conscientização é tarefa coletiva e compartilhada.
É fundamental destacar que os municípios têm papel central nas questões climáticas e ambientais, pois são eles que lidam diretamente com os impactos locais, como enchentes, secas, deslizamentos e problemas de mobilidade urbana. As ações municipais precisam estar em sintonia com os estados e o governo federal, garantindo políticas públicas integradas e consistentes, capazes de fortalecer a resiliência das cidades e do meio rural.
O Brasil também apresenta exemplos positivos, como a expansão das energias renováveis, especialmente, solar e eólica; bem como programas de pagamento por serviços ambientais em diferentes estados, que fortalecem a conservação e a inclusão social.
Apesar das evidências científicas, o negacionismo climático e a disseminação de fake news continuam atrasando medidas urgentes. A desinformação mina a confiança pública e enfraquece políticas ambientais, criando barreiras para a transição energética e para a adoção de soluções sustentáveis.
Mais do que políticas e acordos, é preciso ética e compromisso com as gerações futuras. Cidadãos devem adotar práticas conscientes no consumo e na mobilidade. A sociedade precisa valorizar a ciência e combater a desinformação. Governantes, em todos os níveis, devem assumir responsabilidades reais, planejando e executando políticas públicas integradas. O meio empresarial deve investir em inovação, eficiência energética e modelos de produção limpos. O desafio é construir um desenvolvimento de fato sustentável, inclusivo e inovador, capaz de garantir qualidade de vida para todos, preservar os recursos naturais e proteger a biodiversidade que sustenta a vida no planeta. Somente assim poderemos honrar nosso compromisso com as futuras gerações, assegurando que herdem um mundo equilibrado, justo e saudável.
Luiz Fernando Schettino é Engenheiro Florestal, Mestre e Doutor em Ciência Florestal, Advogado, Escritor, Ambientalista e Ex-Secretário Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Espírito Santo

