Inaugurado em 1923, o Palácio das Águias já foi residência oficial, orfanato e escola antes de se transformar em um dos patrimônios históricos mais intrigantes da capital
Por Thamiris Guidoni
Quem passa pela Ladeira Santa Clara, no Centro de Vitória, dificilmente imagina que as ruínas escondidas entre a vegetação já fizeram parte de uma das construções mais imponentes da capital. No local funcionou o Palácio das Águias, também conhecido como Palácio Santa Clara ou Palácio Nestor Gomes, um edifício que simbolizou o poder político capixaba e acompanhou diferentes momentos da história da cidade.
Inaugurado em 1923, durante o governo de Nestor Gomes, então presidente do Estado — cargo equivalente ao atual governador —, o palacete foi construído no alto de uma colina com vista privilegiada para a Baía de Vitória e o Parque Moscoso. A proposta era servir como residência de repouso dos governantes, mas a função durou pouco. Poucos anos depois, o imóvel passou a abrigar o Orfanato Santa Luiza, que recebia meninas vindas do interior do Espírito Santo.
Com arquitetura eclética e ornamentação sofisticada, o prédio rapidamente se tornou um dos marcos urbanos da capital. Fotografias preservadas pelo Arquivo Público Municipal mostram a imponência da construção, que dominava a paisagem da região central em uma Vitória que começava a viver seu processo de modernização.
Ao longo do século XX, o Palácio das Águias ganhou diferentes funções. Pesquisadores e documentos históricos apontam que o espaço chegou a funcionar como escola e também como centro de tratamento de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs). A convivência entre estudantes e pacientes gerou controvérsias na época e motivou a construção de uma divisória que ficou conhecida como “Muro da Vergonha”.
A partir da década de 1970, o edifício foi desocupado e abandonado. Sem manutenção, perdeu gradualmente elementos arquitetônicos como escadarias, colunas, arcos e estátuas. O que restou foi tombado pelo Conselho Estadual de Cultura em 1985, garantindo proteção às ruínas e ao valor histórico do local.

Hoje, a memória do Palácio das Águias segue preservada por fotografias, documentos e pesquisas históricas. Além disso, maquetes físicas e reconstruções digitais desenvolvidas por pesquisadores permitem que moradores e visitantes conheçam como era uma das construções mais emblemáticas da história de Vitória, mesmo após o desaparecimento de grande parte de sua estrutura original.
Assim fica com mais cara de reportagem histórica e menos de texto corrido institucional. O intertítulo “De palácio a ruína” cria uma virada narrativa interessante: primeiro a ascensão e a imponência, depois o abandono e a preservação da memória.


