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Cidades-esponja e a nova cultura urbana diante da crise climática

Cidades-esponja e a nova cultura urbana diante da crise climática

 

A reutilização da água tratada deve ser ampliada para além do uso doméstico e agrícola, indústria e serviços podem reduzir fortemente a pressão sobre os recursos hídricos

Por Luiz Fernando Schettino 

O Brasil enfrenta uma realidade alarmante: entre 2020 e 2024, foram registrados mais de 10 mil eventos climáticos extremos, como enchentes, deslizamentos e ciclones, que causaram 1.124 mortes e prejuízos superiores a R$ 67 bilhões. Em 2025, a frequência e a intensidade desses fenômenos tornaram-se ainda mais evidentes, exigindo uma transformação profunda na forma como planejamos e ocupamos os espaços urbanos. Nesse cenário, o conceito de cidade-esponja desponta como uma das soluções mais eficazes para mitigar os impactos da crise climática.

A cidade-esponja é um modelo de urbanismo que propõe a convivência com a água, e não sua rejeição. Em vez de canalizar e expulsar rapidamente a água da chuva por meio de concreto e tubulações, esse modelo aposta em soluções baseadas na natureza, como parques alagáveis, telhados verdes, pavimentos permeáveis e jardins de chuva. Essas estruturas permitem que a água infiltre no solo, alimente os lençóis freáticos e seja armazenada para usos futuros, como irrigação. Além de reduzir alagamentos, essa abordagem melhora a qualidade da água, combate ilhas de calor e promove bem-estar.

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No entanto, a adoção desse modelo exige mais do que infraestrutura. É fundamental que os gestores públicos estabeleçam metas claras e mensuráveis para o acesso à água e ao saneamento, com planejamento contínuo, coleta de dados e monitoramento. A articulação entre governos, empresas e comunidades é essencial para garantir que os recursos sejam direcionados de forma justa, beneficiando principalmente as populações mais vulneráveis.

Razão pela qual, endossamos as proposições da matéria publicada pelo O Estado de S. Paulo1, que reforça a importância de integrar inovação, equidade e participação social nas políticas públicas.

A educação ambiental tem papel central nesse processo. É por meio dela que se forma uma cultura de cuidado com o território, de valorização da água e de respeito aos ciclos naturais. Cidadãos conscientes são mais propensos a adotar práticas sustentáveis, cobrar ações efetivas e participar das decisões que moldam o futuro das cidades. A arborização urbana também deve ser tratada como prioridade, pois contribui para a regulação térmica, a retenção de água e a melhoria da qualidade do ar.

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Outro ponto crucial é a destinação de orçamentos públicos adequados para obras de infraestrutura resiliente, programas de reuso da água, sistemas de alerta e habitação segura. Sem financiamento consistente, as boas ideias não saem do papel. Além disso, é imprescindível que o estabelecimento de novos loteamentos respeite rigorosamente as leis ambientais, evitando ocupações em áreas de risco e protegendo ecossistemas essenciais para o equilíbrio climático.

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A reutilização da água, devidamente tratada, deve ser incentivada não apenas na agricultura e no uso doméstico, mas também nas áreas industriais e de serviços, que consomem grandes volumes e têm potencial para reduzir significativamente a pressão sobre os recursos hídricos.

A diversificação das fontes de abastecimento, como a dessalinização da água do mar e o aproveitamento da água da chuva, deve ser combinada com essas estratégias.

A construção de diques, barragens e reservatórios continua sendo importante, mas deve estar integrada a soluções baseadas na natureza. Moradias resilientes, inspiradas em modelos internacionais, precisam ser priorizadas em regiões vulneráveis, e a participação de grupos minorizados nas decisões deve ser garantida.

A crise climática é um desafio coletivo. Cabe ao poder público liderar com responsabilidade, mas também a cada cidadão compreender seu papel na construção de cidades mais sustentáveis. A cidade-esponja simboliza essa nova cultura urbana: resiliente, inclusiva e em harmonia com a natureza.

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Luiz Fernando Schettino é Engenheiro Florestal – Mestre e Doutor em Ciência Florestal, Advogado, Escritor e ex-secretário Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos – Seama/ES

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