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A Arqueologia dos Grupos de WhatsApp

Os melhores são os grupos criados para resolver problemas. Nenhum deles resolveu coisa alguma, mas continuam ocupando espaço na memória digital da humanidade

Por André Gomyde

Outro dia resolvi fazer uma limpeza no WhatsApp. Não uma limpeza qualquer. Uma escavação arqueológica.

Porque chega um momento da vida em que o celular deixa de ser um aplicativo de mensagens e passa a ser um museu de intenções abandonadas. Comecei pelos grupos.

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Logo encontrei um chamado “100 Anos da Tia Joana”. A ideia era linda. Festa, bolo, homenagens, família reunida. Só havia um pequeno detalhe: a tia Joana acabara morrendo antes do aniversário. Faz uns cinco anos. Mas o grupo continuava lá.

A última mensagem era uma pergunta dramática:

— Quem vai organizar o enterro da tia? Ninguém respondeu. Talvez por falta de cobertura. Talvez por respeito. Talvez porque todos tenham migrado para outro grupo chamado “Enterro da Tia Joana Oficial”.

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Continuei a investigação.

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Encontrei um grupo chamado “Projeto Estratégico 2021”. A última mensagem dizia:

— Precisamos alinhar isso urgentemente. Fazia quatro anos. Pelo visto, não alinharam.

Achei também um grupo chamado “Equipe Campeã”.

Nem lembro do que se tratava. Talvez uma equipe de trabalho. Talvez futebol. Talvez uma tentativa de revolução administrativa.

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A única certeza é que fui demitido daquele projeto há tanto tempo que hoje provavelmente eu precisaria me apresentar novamente.

Mais adiante apareceu “Churrasco Imperdível”. O churrasco ocorreu em 2019. O grupo segue ativo. Uma vez por ano alguém manda um emoji de fogo. Ninguém sabe por quê.

Há também os grupos de amigos. Esses são os mais emocionantes. “Galera para Sempre”. Bonito nome. Não vejo metade das pessoas há uma década. Alguns mudaram de cidade. Outros mudaram de vida. Alguns mudaram até de opinião política, o que, hoje em dia, equivale a mudar de planeta.

Mas o grupo permanece firme, preservando memes de 2018 como patrimônio histórico.

Descobri ainda um grupo chamado “Academia Sem Desculpas”. A última postagem era:

— Segunda-feira começamos sério. Data da mensagem: março de 2022. O grupo virou um memorial da procrastinação.

Mas os melhores são os grupos criados para resolver problemas específicos. “Compra do Presente do Roberto”. “Viagem de Julho”. “Conserto da Piscina”.“Comissão Provisória do Estudo Preliminar da Reunião Preparatória”.

Nenhum deles resolveu coisa alguma. Mas continuam ocupando espaço na memória digital da humanidade.

O curioso é que os grupos acabam parecendo cápsulas do tempo. Guardam sonhos, planos, amizades, projetos e pequenas tragédias cotidianas. São cemitérios de boas intenções. Ou talvez não.

Talvez sejam apenas provas de que a vida é assim mesmo. A gente cria grupos para organizar o futuro. O futuro chega. Desorganiza tudo. E o grupo fica lá. Silencioso. Esperando alguém mandar um “bom dia” com flores e um versículo.

Como toda instituição séria do Brasil.

André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

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