
Na teoria, tomar banho é um ato simples. Você abre o registro, regula a temperatura e pronto. No universo dos hotéis, porém, isso se transforma numa experiência interativa
Por André Gomyde
Epaminôndas viaja muito. Já esteve em capitais, interiores, praias, serras, cidades históricas e lugares onde a principal atração turística era um posto de gasolina com lanchonete. Aprendeu a lidar com malas extraviadas, travesseiros decorativos e café da manhã servido em pratos quadrados. Mas nada, absolutamente nada, o preparou para o maior desafio da hotelaria mundial: o chuveiro.
O chuveiro de hotel não é um equipamento. É um teste psicológico.
Epaminôndas sabe disso. Toda vez que entra num quarto, já olha para o banheiro com a mesma cautela de quem observa uma armadilha medieval.
Na teoria, tomar banho é um ato simples. Você abre o registro, regula a temperatura e pronto. No universo dos hotéis, porém, isso se transforma numa experiência interativa, quase um escape room com vapor.
Há os chuveiros que não esquentam.
São sempre em manhãs frias, quando o corpo implora por misericórdia térmica. Epaminôndas gira a torneira para um lado, depois para o outro, espera, conversa com ela, faz promessas. Nada. A água sai com a temperatura emocional de um iceberg.
E o pior: não há a quem recorrer. Às seis da manhã, a recepção parece um departamento abandonado por uma civilização extinta.
Mas o verdadeiro clássico é o chuveiro desgovernado.
Aquele em que um fio d’água sobe para cima, outro dispara à esquerda, um terceiro escapa à direita e um quarto pinga resignado no centro, como quem ainda tenta cumprir sua função.
Epaminôndas entra no banho e sente-se dentro de uma instalação artística sobre caos.
É impossível molhar o corpo inteiro ao mesmo tempo. Para enxaguar o ombro esquerdo, ele precisa girar como um satélite desalinhado. Para lavar o cabelo, adota uma posição que mistura yoga com pedido de socorro.
E há o drama dos boxes. Por alguma razão misteriosa, arquitetos de hotel decidiram que a porta nunca deve ficar próxima ao chuveiro. Não. Ela fica no lado oposto, garantindo que, ao abrir o registro, Epaminôndas precise atravessar o banheiro inteiro sob uma rajada inicial de água gelada.
É um ritual. Ele liga o chuveiro e imediatamente leva uma ducha ártica nas costas. Dá um salto, escorrega na dignidade e entra no box já desconfiando da humanidade.
Sem falar nas torneiras enigmáticas. Algumas giram, outras puxam, outras exigem um toque delicado e uma senha emocional. Há hotéis em que descobrir como ligar a água quente equivale a decifrar hieróglifos.
Epaminôndas já considerou dormir sem banho. Mas persiste.
Porque o viajante brasileiro tem esperança. Mesmo quando cercado por jatos diagonais e vapor inexistente.
No fundo, ele acredita que um dia encontrará um chuveiro simples, honesto, previsível.
Até lá, segue em peregrinação, molhado pela metade e filosoficamente ensaboado. Porque viajar abre horizontes. E, às vezes, entope ralos.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

