A pergunta não é só por que um banco digital consegue ser rápido e um banco tradicional não. A pergunta é: por que insistimos em achar normal o que não funciona?
Por André Gomyde
Primeira semana do ano. A gente ainda dizendo “feliz ano novo” com sinceridade, prometendo beber água, caminhar e responder e-mails com educação. E lá vou eu ao banco. Não a um banco qualquer, mas ao nosso banco. Aquele que teoricamente é moderno, centenário e cheio de história. O resultado? O mesmo de sempre. Uma viagem no tempo – só que sem charme.
As agências continuam com aquele clima de repartição de 1987. Poucos funcionários, muitos clientes e um painel eletrônico que chama a senha como se estivesse fazendo um favor. O atendimento demora tanto que dá tempo de rever decisões de vida, pedir perdão mentalmente a desafetos e pensar seriamente em aprender crochê.
Enquanto isso, no mundo paralelo dos bancos digitais, você abre conta em três minutos, faz empréstimo em cinco, paga boleto em dois e ainda recebe um “parabéns, você é incrível” no final. Um banco desses resolve sua vida enquanto você ainda está tentando achar o óculos. Tudo imediato. Tudo simples. Tudo funcionando.
Aí você volta ao banco tradicional e descobre que seu saldo está atrasado. O extrato parece escrito por um cronista modernista: fragmentado, subjetivo, cheio de lacunas. Você sabe que pagou a conta ontem, mas o banco ainda não sabe. Ou sabe, mas prefere manter suspense. É quase literatura interativa.
O cartão de crédito é outro capítulo dessa epopeia. Você paga hoje. Dinheiro sai da sua conta com pontualidade suíça. Mas o limite só volta daqui a três ou quatro dias. Por quê? Mistério. Talvez o dinheiro precise descansar. Talvez esteja em retiro espiritual. Talvez esteja preso no trânsito bancário.
O mais curioso é que ninguém explica. Não há um botão escrito “por que isso é assim?”. Só um silêncio burocrático que diz: “Sempre foi assim, aceite”. E a gente aceita. Resmunga, mas aceita. Afinal, trocar de banco dá trabalho, e o trabalho já está todo no banco.
A pergunta que fica não é só por que um banco digital consegue ser rápido e um banco tradicional não. A pergunta maior é: por que insistimos em achar normal o que claramente não funciona? Por que toleramos sistemas lentos, confusos e pouco transparentes como se fossem uma lei da natureza?
Se queremos ser um país sério algum dia – desses que funcionam sem exigir paciência budista – precisamos começar pelas coisas simples. Atendimento decente. Informação clara. Tecnologia que ajude, não que atrapalhe. Respeito ao tempo do cidadão, que já é curto e anda caro.
Ano novo, esperança nova. Mas, pelo visto, no banco, continua tudo igual. E isso cansa mais do que fila sem senha.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde


