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O Carro, o Detran e a Filosofia do Carimbo

O Carro, o Detran e a Filosofia do Carimbo

Do lado de fora do Detran, existe a República Federativa do Brasil. Do lado de dentro, vigora outro regime, com leis próprias, linguagem própria e uma relação muito íntima com cópias autenticadas

Por André Gomyde

Comprar um carro usado no Brasil é uma experiência de fé. A pessoa sai feliz da vida, segura o volante, sente o cheiro do banco, imagina passeios, estrada, liberdade. Mal sabe ela que comprou, junto com o veículo, um pacote premium de humilhação burocrática.

Porque o carro, veja bem, não é seu de verdade enquanto o Detran não achar que é.

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E o Detran, como se sabe, é uma entidade metafísica. Você não entra num Detran. Você atravessa um portal. Do lado de fora, existe a República Federativa do Brasil. Do lado de dentro, vigora outro regime, com leis próprias, linguagem própria e uma relação muito íntima com cópias autenticadas.

Você chega inocente, achando que vai “resolver a transferência”. Palavra perigosa, resolver. Ninguém resolve nada no Detran. No máximo, você inicia uma jornada. Leva RG, CPF, comprovante de residência, contrato, laudo, assinatura reconhecida, duas fotos 3×4 que ninguém pediu, mas você leva por trauma preventivo.

Aí a moça do balcão diz:

— Falta uma via.

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Você pergunta:

— De quê?

Ela responde:

— Daquilo.

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E você entende, naquele instante, que “aquilo” é o nome técnico da sua derrota.

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É curioso como o processo sempre parece ter sido desenhado por alguém que, na infância, brincava de labirinto e cresceu com mágoa. Tudo é lento, fragmentado, cheio de guichês, etapas e pequenos rituais administrativos. Falta só um monge batendo um sino entre uma senha e outra.

Mas então entra em cena uma figura mística do cotidiano nacional: o despachante.

Ah, o despachante. Esse ser iluminado, com uma pasta de documentos debaixo do braço e uma serenidade que faria inveja a um mestre zen. Você entrega a ele os mesmos papéis, as mesmas informações, a mesma cara de sofrimento… e, misteriosamente, tudo anda. Anda rápido. Anda certo. Anda quase alegre. A pergunta inevitável é: por que será?

Como pode o cidadão comum levar três luas e um eclipse para transferir um carro, enquanto o despachante, munido apenas de grampeador, cafezinho e sabedoria ancestral, consegue resolver em tempo recorde?

Não estou dizendo nada. Apenas perguntando com a inocência de quem já passou quatro horas numa fila para descobrir que estava na fila errada.

Enquanto isso, no Japão, dizem que você vai à prefeitura da sua localidade e resolve tudo em três horas. Três horas! No Brasil, em três horas você talvez consiga descobrir em qual andar precisa pegar a senha que vai permitir agendar a autenticação da etapa preliminar do pré-atendimento.

No Japão, o sistema foi feito para funcionar. No Brasil, parece que foi feito para ser compreendido apenas por iniciados.

Talvez o verdadeiro teste para dirigir no Brasil nem seja a prova prática. Talvez seja sobreviver à transferência de um veículo usado sem perder a dignidade, a paciência e a vontade de vender tudo e comprar uma bicicleta.

E olhe lá. Porque, dependendo do órgão, até a bicicleta pode exigir firma reconhecida.

André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

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