
Juros altos, nesse contexto, deixam de ser um instrumento temporário de política econômica e passam a funcionar como sintoma crônico de um problema mais profundo
Por Clovis Vieira
Os números mais recentes do Boletim Focus não deixam margem para interpretações complacentes: o Brasil caminha, mais uma vez, para ficar preso à armadilha dos juros elevados, crescimento medíocre e inflação persistente. A elevação das projeções da taxa SELIC para 13,00% em 2026 e 11,00% em 2027 não é apenas um ajuste técnico — é um diagnóstico claro de desconfiança.
O mercado está dizendo, de forma inequívoca, que não acredita em uma convergência rápida da inflação. E não acredita porque, na prática, os fundamentos continuam frágeis. As expectativas para o IPCA seguem subindo semana após semana, aproximando-se perigosamente do teto da meta, enquanto o avanço expressivo do IGP-M revela que as pressões inflacionárias são mais amplas e disseminadas do que se gostaria de admitir.
Diante desse quadro, o Banco Central não tem alternativa senão manter uma política monetária restritiva por mais tempo. Não se trata de escolha, mas de imposição das circunstâncias. O problema é que essa estratégia, embora necessária, cobra um preço alto — e conhecido: crescimento anêmico.
As projeções de PIB continuam orbitando em torno de modestos 1,8%, um número que, na prática, mal acompanha o crescimento populacional e é insuficiente para promover avanços sociais relevantes. Trata-se de um retrato incômodo de uma economia que perdeu dinamismo e capacidade de reação.
O único alívio parcial vem do câmbio, cujas projeções indicam leve apreciação do real. Mas é um alívio limitado e, sobretudo, frágil. Em um ambiente global ainda incerto, qualquer mudança de humor externo pode reverter rapidamente esse movimento.
O ponto central, no entanto, está além dos indicadores conjunturais. O que os números do Focus escancaram é a ausência de um horizonte claro de ajuste estrutural. Sem credibilidade fiscal robusta, sem avanços consistentes em produtividade e sem um ambiente mais previsível para investimentos, o país continuará refém desse ciclo vicioso.
Juros altos, nesse contexto, deixam de ser um instrumento temporário de política econômica e passam a funcionar como sintoma crônico de um problema mais profundo: a incapacidade de o Brasil resolver suas distorções estruturais.
Enquanto isso não for enfrentado com seriedade, o país seguirá condenado a voos curtos — com estabilidade precária, crescimento baixo e oportunidades desperdiçadas.
Clovis Vieira é Economista

