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A Teoria da Relatividade das Passagens Aéreas

Talvez o Brasil seja mesmo um país continental. Tão continental que, em alguns momentos, sair de São Paulo para o Nordeste parece uma expedição transatlântica

Por André Gomyde

Outro dia resolvi pesquisar uma passagem aérea para uma viagem dentro do Brasil. Nada extravagante. Nada exótico. Não pretendia atravessar oceanos, conhecer castelos medievais nem tomar café olhando para os Alpes. Queria apenas sair de uma cidade brasileira e chegar a outra cidade brasileira.

Quando vi o preço, achei que o sistema tinha entendido errado. Voltei. Pesquisei de novo. O preço continuava lá. Então tive uma ideia ousada: pesquisar uma passagem para a Europa. E foi nesse momento que a física entrou na conversa.

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Porque não existe outra explicação. Einstein claramente trabalhou em alguma companhia aérea. Como pode uma passagem para atravessar o Oceano Atlântico, voando milhares de quilômetros, custar menos do que uma viagem doméstica?

O avião para a Europa atravessa continentes, enfrenta correntes atmosféricas, muda de hemisfério, conversa com satélites e provavelmente cumprimenta baleias pelo caminho. Já o voo nacional mal termina o serviço de bordo e já está pousando.

Mas o preço parece acreditar exatamente no contrário. Comecei então a imaginar a reunião que define as tarifas.

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— Quanto custa ir para Paris? Mil e quinhentos.

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— E para uma cidade a oitocentos quilômetros daqui? Três mil.

— Não está invertido? Não. Está estratégico.

Estratégico é uma palavra maravilhosa. Ela serve para explicar tudo aquilo que ninguém consegue explicar.

O curioso é que o passageiro brasileiro já nem se surpreende mais. Ele abre o aplicativo, vê o valor da passagem e passa imediatamente pelas cinco fases da aceitação.

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Primeiro vem o choque. Depois a negação. Em seguida a revolta. Logo depois a barganha. E finalmente a resignação.

Talvez eu vá de ônibus. O problema é que o ônibus leva doze horas. Talvez eu vá de carro. A gasolina lembra que também quer participar da conversa. Talvez eu fique em casa.

Pronto. É exatamente aí que a tarifa vence.

Os aeroportos brasileiros já são uma experiência filosófica por si só. Você paga caro para chegar, caro para estacionar, caro para tomar um café e caro para descobrir que seu portão mudou. A passagem é apenas o prefácio.

Enquanto isso, alguém embarca para Lisboa, Madri ou Roma por um valor que faria sentido para uma viagem internacional.

O sujeito atravessa oceanos, fusos horários e culturas gastando menos do que outro brasileiro que deseja apenas visitar a tia em outro Estado.

Não estou dizendo que as companhias aéreas estejam erradas. Estou apenas observando que existe algo poeticamente estranho quando se torna mais fácil visitar outro continente do que conhecer melhor o próprio país.

Talvez o Brasil seja mesmo um país continental. Tão continental que, em alguns momentos, sair de São Paulo para o Nordeste parece uma expedição transatlântica. Com a diferença de que Colombo não precisou pagar bagagem despachada.

André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

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