Camila Valadão alerta para atuação reativa do Estado e defende planejamento de longo prazo para enfrentar eventos climáticos extremos no ES
Por Denise Miranda
O avanço de eventos climáticos extremos no Espírito Santo, como ondas de calor acima dos 40 °C e chuvas intensas que provocam enchentes, tem ampliado a pressão sobre o poder público e reacendido o debate político e institucional sobre adaptação climática e proteção das populações mais vulneráveis. Pensando neste contexto, a deputada estadual Camila Valadão (PSOL) apresentou a Indicação nº 1715/2025, que propõe estudos técnicos de risco das bacias hidrográficas e ações de revitalização de rios.
“Ainda agimos de forma reativa. O Espírito Santo tem equipes técnicas e estruturas importantes, mas falta planejamento de longo prazo. Estamos respondendo às tragédias depois que elas acontecem, quando o correto é antecipar riscos, investir em prevenção e proteger vidas antes que os eventos extremos ocorram”, avaliou a deputada.
Segundo ela, a recorrência desses fenômenos exige uma mudança urgente na forma como o Estado planeja suas cidades e seu território, com foco em segurança hídrica e preservação de vidas.
“Os instrumentos legais já existem. A Política Estadual de Mudanças Climáticas está em vigor desde 2010, e o conhecimento técnico também está disponível. O que falta é priorizar essa agenda, garantir orçamento, envolver os municípios e transformar estudos em ações contínuas”, explica. A indicação foi elaborada em parceria com a Associação Juntos SOS Ambiental.

A proposta destaca medidas voltadas às populações mais vulneráveis, que sofrem de forma desproporcional com enchentes e calor extremo.
“Essas pessoas vivem em áreas com infraestrutura precária, pouca arborização e solo impermeabilizado. Enchentes geram perdas materiais, agravam a insegurança econômica e colocam vidas em risco”, alerta Camila. Ela também defende a criação de espaços comunitários de conforto térmico. “O enfrentamento ao calor não pode se limitar ao uso de ar-condicionado. Soluções baseadas na natureza são mais democráticas, acessíveis e permanentes.”
Entre essas soluções estão o aumento da permeabilidade do solo, o reflorestamento e a recuperação de matas ciliares. “A vegetação reduz a temperatura, retém água, diminui a velocidade da enxurrada e evita a erosão. O excesso de concreto agrava os impactos das chuvas intensas”, destaca a deputada, ressaltando que essas alternativas são mais sustentáveis e, muitas vezes, mais baratas do que grandes obras exclusivamente tecnológicas.
Para a parlamentar, a participação da sociedade civil é decisiva para a eficácia das políticas públicas. “São as comunidades que conhecem o território, os riscos e as urgências do dia a dia. Sem participação popular, as políticas tendem a ser distantes da realidade e menos eficazes”, conclui.
Muitos países já utilizam soluções baseadas na natureza para enfrentar enchentes e ondas de calor, variando principalmente a intensidade dessas políticas. Um dos exemplos mais difundidos são as cidades esponja, conceito criado pelo arquiteto chinês Kongjian Yu e aplicado em larga escala na China, onde o desenho urbano permite absorver a água da chuva, reduzir alagamentos e recarregar aquíferos.
Experiências semelhantes avançam na Europa, por meio do programa Naturvation, e na América Latina. No Brasil, São José dos Campos (SP) recebeu o selo Tree Cities of the World, da FAO, por investimentos em arborização e permeabilidade do solo. Em Medellín, na Colômbia, corredores verdes implantados desde 2016 já comprovam redução da temperatura urbana, reforçando que adaptação climática exige planejamento e ação contínua.

