
Um lado ameaça, gesticula e transforma o assunto em espetáculo, o outro responde com uma calma que dá a impressão de que está explicando matemática para uma criança
Por André Gomyde
Há brigas que a gente entende. Vizinho com vizinho por causa de barulho. Parente com parente por causa de herança. Até discussão de trânsito, apesar de irracional, tem sua lógica emocional. Agora, quando surge uma briga entre um político barulhento e um Papa, a gente percebe que o roteiro da realidade já não passa por revisão.
De um lado, temos um sujeito que fala como se estivesse permanentemente em um palanque, mesmo quando está sozinho. Do outro, um homem vestido de branco, que dedica boa parte do tempo a pedir calma, compaixão e, se possível, um pouco de silêncio interior. É quase uma disputa entre um megafone e um sino de igreja.
O curioso é que o Papa nem precisa aumentar o tom de voz. Basta falar baixo e pausadamente que já cria um contraste constrangedor. Enquanto um lado ameaça, gesticula e transforma qualquer assunto em espetáculo, o outro responde com aquela calma que dá a impressão de que está explicando matemática para uma criança muito agitada.
E talvez esteja mesmo.
Imagino a cena. O político dispara uma declaração inflamável, cheia de certezas absolutas e exclamações invisíveis. O Papa, do outro lado, lê, suspira e responde algo como:
— Vamos refletir.
Pronto. Acabou a briga.
Porque é difícil discutir com quem não quer brigar. É como tentar jogar pingue-pongue sozinho: você bate, a bola não volta, e em algum momento precisa admitir que está só fazendo barulho.
O mais interessante é que, no fundo, a situação revela uma certa inversão de papéis. Espera-se que líderes políticos tenham alguma ponderação e que líderes religiosos tragam serenidade. Quando um começa a agir como comentarista de rede social e o outro como adulto responsável na sala, a plateia fica meio sem saber se ri ou se reza.
E ri. Porque, convenhamos, há algo de cômico em ver alguém tentando discutir com quem representa, oficialmente, a paciência.
Talvez o grande ensinamento dessa história seja simples: nem toda provocação merece resposta no mesmo tom. Às vezes, a melhor resposta é justamente não entrar no jogo. Ou entrar com elegância suficiente para fazer o outro parecer ainda mais exagerado.
No fim das contas, a humanidade anda precisando menos de discursos inflamados e mais de vozes que convidem à reflexão. Menos grito, mais sentido. Menos espetáculo, mais conteúdo.
E, se for para escolher um lado numa discussão dessas, talvez valha apostar naquele que não precisa gritar para ser ouvido.
Porque, no mundo atual, falar baixo já virou quase um ato revolucionário.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

