No ócio criativo, a folga se transforma em uma espécie de “preguiça ativa”. Trata-se de uma oportunidade de relaxar e se qualificar
Por Victor Mazzei
Há um mês, uma jornalista entrou em contato solicitando comentários sobre como a preguiça poderia aumentar a criatividade das pessoas. Delicadamente, disse que não concordava com aquela pauta, pois, embora muitos usem equivocadamente os termos como sinônimos, preguiça e ócio criativo são temas bem diferentes.
Para quem não sabe, foi o genial pensador italiano Domenico De Masi quem tornou popular a expressão “ócio criativo”. Segundo De Masi, nos dias atuais, vivemos atarefados, envolvidos em múltiplos compromissos e desperdiçando tempo valioso em engarrafamentos. Tudo isso, obviamente, gera um desgaste tremendo e uma sensação de desperdício das nossas potencialidades.
A proposta do ócio criativo envolve repensar nossas práticas profissionais. Por meio de ocupações mais criativas e não convencionais, o ser humano poderia dedicar seus talentos e seu tempo a atividades que o desafiem e o motivem. Explico: o trabalho ganharia uma dimensão lúdica, à medida que se confundisse com estímulos para o aprendizado e a diversão.
Outro ponto dessa teoria refere-se à desestruturação da noção de tempo e espaço: não é mais preciso ter uma sede fixa, nem mesmo cumprir as oito horas protocolares para dar conta das obrigações profissionais ou acadêmicas. Atualmente, já é recorrente encontrarmos pessoas que fazem das cafeterias os seus escritórios. Cada um define como se vestir e o horário para a execução de uma empreitada. Alguns preferem a noite; outros, a tarde ou a madrugada.
Mas o que fazer com os períodos livres? Aí reside um tópico muito relevante, pois, para De Masi, a flexibilização da escala de trabalho nos concede oportunidades para ações que realmente contribuam para ampliar nosso repertório cultural e emocional, como passear com o cachorro pela manhã ou ir ao cinema logo após o almoço. Por que não? Qual o problema em destinar parte do dia a fazer o que se curte, com quem se gosta? Nenhum, contanto que os prazos sejam cumpridos e a boa qualidade do trabalho se mantenha.
Em linhas gerais, isso é ócio criativo: trabalhar criativamente com aquilo que nos gratifica, no momento que nos convier, sem nos submetermos a horários previamente estabelecidos, e ainda poder usufruir das folgas como quisermos. Entre as profissões que podem gozar dessa possibilidade estão jornalistas, publicitários, arquitetos, engenheiros, fotógrafos, entre outras.
Com a implementação do trabalho híbrido ou remoto, sobretudo no período pós-pandemia, muitas empresas perceberam que é possível potencializar o desempenho dos colaboradores oferecendo à equipe maior flexibilidade em relação à jornada de trabalho, a fim de evitar deslocamentos desgastantes e permitir a execução de algumas tarefas em casa. A remuneração passa a levar em consideração as metas estipuladas, e não apenas o período de permanência em uma instituição. Dessa forma, ao menos no papel, torna-se possível conciliar melhor o tempo dedicado ao trabalho, ao descanso e ao lazer.
Diante do que foi exposto, percebe-se que ócio criativo não tem o mesmo significado de preguiça. Não pretendemos, com isso, condenar quem lança mão daquela preguicinha marota, principalmente no fim de semana, deitado no sofá, deixando a mente vagar livremente enquanto zapeia canais sem qualquer destino. Inclusive, esse relaxamento é fundamental para recuperar as energias intelectuais e físicas.
Por sua vez, no ócio criativo, a folga se transforma em uma espécie de “preguiça ativa”. Acaba virando uma oportunidade para rever grandes amigos, assistir a um seriado que tanto lhe recomendaram, fazer uma viagem rápida ou ir a um restaurante novo. Enfim, trata-se de uma oportunidade de relaxar e se qualificar.
E quanto à matéria jornalística citada no primeiro parágrafo, da qual me pediram opinião? Na reportagem publicada, a jornalista preferiu não mencionar as observações que fiz sobre o perigo de se embaralharem as definições de preguiça e ócio criativo. Talvez ela não tenha concordado com minha argumentação, o que respeito; ou então, quem sabe, também tenha sido vítima de uma incontrolável preguiça de apurar um pouco mais sobre o tema e acabou optando pelo caminho mais fácil.
Victor Mazzei é redator publicitário, professor universitário, autor, mestre em História e doutor em Educação Física

