Indústria tem apresentado soluções para otimizar o uso da água. O foco tem sido o aumento da eficiência na gestão do recurso
Por Davi Bomtempo
Enquanto os gaúchos ainda enfrentam situações emergenciais causadas pelas enchentes no Rio Grande do Sul, os amazonenses se preparam para um novo evento climático extremo no país: a seca. Recentemente, a Defesa Civil do Amazonas divulgou um alerta de que a estiagem deste ano no estado deve ser tão ou mais severa que a registrada em 2023.
Ambos os cenários exigem que o país acelere as ações de adaptação às mudanças do clima. E não há como falar de adaptação sem falar sobre segurança hídrica.
Eventos climáticos extremos tornam as chuvas mais escassas e imprevisíveis. Levantamento feito pelo Plano Nacional de Segurança Hídrica (PNSH), documento construído com a participação da Confederação Nacional da Indústria (CNI), indica que, se não houver disposição para implementar infraestrutura hídrica adaptada às mudanças do clima e a necessária adequação na gestão das águas, até 2035, cerca de 74 milhões de brasileiros podem enfrentar algum grau de insegurança hídrica.
Investimentos em infraestrutura e saneamento básico são essenciais para conter esse prognóstico. Ambos trazem resultados positivos não só para a saúde pública, como também para a indústria, com auxílio na redução de gastos com tratamento de água e estímulo à diminuição do consumo.
O Brasil investiu em média menos de 2% do PIB ao ano na última década – isto é, menos de R$ 200 bilhões anuais. A CNI projeta que seria preciso pelo menos dobrar esse montante de investimento no setor, por um período de duas décadas, para que o país consiga manter sua atual infraestrutura e superar os gargalos.
A universalização do saneamento básico garante ampliação de investimentos, ganhos em eficiência e bem-estar. Afeta diretamente o potencial de crescimento do país, tanto no estoque de capital quanto na produtividade, com melhor formação humana, avanços em saúde e educação, maior capacidade de trabalho e aprendizado.
Atualmente, mais de 93 milhões de brasileiros (44%) não têm acesso à coleta de esgoto e apenas 52,2% dos esgotos coletados são tratados. Segundo dados da Unicef e da OMS, o Brasil está 85ª posição do ranking de saneamento que abrange 137 países.
Neste cenário, a indústria tem apresentado soluções para otimizar o uso da água. O foco tem sido o aumento da eficiência na gestão do recurso, com apostas em recirculação da água, em sistemas adaptativos de captação, em reúso e no aproveitamento de efluentes tratados.
Há setores com excelentes resultados, um exemplo é o sucroenergético que, no estado de São Paulo, entre 1990 e 2021, reduziu aproximadamente 60% a demanda absoluta de água, enquanto a produção de cana aumentou, no mesmo período, cerca de 150%. Outro setor que ostenta bom resultado é o de mineração, que reutiliza mais de 80% da água consumida em seus processos de lavagem e beneficiamento de minérios.
A CNI também tem elaborado, desde 2017, insumos técnicos sobre o potencial de uso de efluentes tratados para abastecimento industrial na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) e nos estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Paraíba, Maranhão e Rio Grande do Sul. O objetivo é subsidiar gestores, legisladores e tomadores de decisão (em nível federal, estadual e municipal) para que possam desenvolver, com o setor industrial, estratégias promotoras do acesso sustentável à água e do desenvolvimento econômico e social.
Diante desses desafios, é estratégico para o país adotar práticas de gestão integrada dos recursos hídricos, investir em tecnologias de conservação e reúso da água, promover a conscientização ambiental e fortalecer políticas públicas que visem a preservação e o uso racional dos recursos hídricos.
Davi Bomtempo é superintendente de Meio Ambiente e Sustentabilidade da CNI
Esse artigo é uma republicação da Edição 222 da Revista ES Brasil — Anuário Verde: Água. Confira a revista digital completa clicando neste link.


