- Continua após a publicidade -
- Continua após a publicidade -

As tarifas dos EUA e o equívoco sobre a rocha natural brasileira

O Brasil não é apenas mais um fornecedor neste mercado. É líder mundial na oferta de quartzitos, granitos, mármores e outras rochas naturais

Por Fabio Cruz

No último dia 1º de agosto, entrou em vigor uma nova rodada de tarifas anunciadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre produtos importados do Brasil. A medida impôs um acréscimo de 40% sobre itens que já estavam sujeitos a uma tarifa de 10%, elevando o impacto total a 50%. A decisão surpreendeu tanto o setor produtivo brasileiro quanto importantes agentes econômicos norte-americanos. O segmento de rochas naturais foi diretamente impactado.

Ao contrário do que muitos imaginam, o Brasil não é apenas mais um fornecedor neste mercado. É líder mundial na oferta de quartzitos, granitos, mármores, ardósias, pedra-sabão e outras rochas naturais – com aplicação predominante no setor residencial americano, especialmente em bancadas de cozinha e banheiro. Esses materiais, em sua grande maioria, não têm substitutos equivalentes em variedade, qualidade, custo e volume disponível nos Estados Unidos.

- Continua após a publicidade -

Mesmo a produção doméstica americana, embora relevante, é voltada majoritariamente a obras comerciais, urbanas ou monumentais. Trata-se, portanto, de produtos com aplicações distintas daqueles fornecidos pelo Brasil. Além disso, é importante lembrar: o que exportamos não é o produto final, mas sim a chapa polida, que serve como matéria-prima para a indústria de recorte, beneficiamento e acabamento local. Ou seja, vendemos insumos que alimentam a indústria americana e ajudam a manter empregos em território americano.

Nesse contexto, incluir essas rochas naturais na lista de produtos tarifados parece, no mínimo, um equívoco técnico por parte das autoridades norte-americanas, que pode custar caro ao próprio mercado interno dos EUA. Segundo estudo recente da National Association of Home Builders (NAHB), o custo médio de construção de uma residência americana já aumentou mais de 40% desde o início da pandemia, enquanto a inflação oficial no mesmo período foi de 21%. A imposição de tarifas adicionais sobre insumos fundamentais como as rochas naturais brasileiras só acentua essa distorção.

Desde o anúncio da medida, o setor de rochas brasileiro se mobilizou com agilidade. A Associação Brasileira de Rochas Naturais (Centrorochas) – entidade que representa o setor de rochas naturais do Brasil – iniciou uma articulação direta com o Natural Stone Institute (NSI), dos Estados Unidos. Essa ação gerou uma forte corrente de apoio internacional. Em parceria com entidades como a NAHB e a Stone Fabricators Alliance (SFA), foi elaborada uma carta oficial ao USTR (Office of the United States Trade Representative), destacando os impactos negativos da medida para o próprio mercado americano. O documento, que cita nominalmente o NSI e a Centrorochas, passou a ser replicado por dezenas de importadores dos EUA com incentivo direto das entidades brasileiras.

Conteúdo em Alta

A Teoria da Relatividade das Passagens Aéreas
Comércio entre Brasil e EUA vai a US$...
A Indústria brasileira e o uso eficiente da...
Feiras de rochas já geram US$ 21,3 milhões...
Papel e Celulose impulsionam empregos e investimentos no...
Selic alta trava recuperação das Small Caps
Casa Branca nega rascunho do acordo EUA-Irã
CNBB apoia Papa Leão XIV após críticas de...
As 8 cidades do ES líderes em vagas...
Excesso de incerteza ameaça construção de confiança

A estratégia foi clara: mostrar que essa tarifa não penaliza o Brasil – ela atinge empresas americanas, encarece projetos residenciais, ameaça empregos e afeta diretamente o consumidor final. É impossível saber com precisão qual ação específica teve mais influência na resposta do governo norte-americano. Mas não há dúvida de que ajudamos a reforçar o papel estratégico das rochas naturais brasileiras para a cadeia produtiva da construção civil nos Estados Unidos.

- Continua após a publicidade -

Isso ficou evidente quando, na publicação oficial dos produtos isentos da nova tarifa, os quartzitos brasileiros foram excluídos da taxação adicional. Uma vitória parcial, mas significativa. Infelizmente, granitos, mármores, ardósias e outros materiais amplamente utilizados nos lares americanos permaneceram tarifados. Aparentemente, houve uma avaliação equivocada – talvez por parte do setor de inteligência comercial ou político – de que haveria produção doméstica suficiente desses materiais, o que não corresponde à realidade de mercado.

Essa mobilização institucional, que envolveu empresas, entidades e parceiros internacionais, também contou com o apoio ativo de autoridades brasileiras em diferentes esferas. Desde o início da crise, a Centrorochas tem atuado em articulação direta com o Governo Federal, participando, por exemplo, da primeira reunião do Comitê Interministerial de Negociação e Contramedidas Econômicas e Comerciais, realizada em 15 de julho em Brasília e liderada pelo vice-presidente Geraldo Alckmin. A participação do setor de rochas nessa agenda estratégica só foi possível graças ao apoio direto do governador do Espírito Santo, Renato Casagrande, que tem acompanhado de perto os impactos sobre o estado – responsável por mais de 95% das exportações brasileiras de rochas aos EUA.

No âmbito da política federal, é justo reconhecer o papel do deputado Evair de Melo, que atuou junto à Embaixada do Brasil em Washington para viabilizar agendas cruciais. Um desses encontros resultou em um evento institucional no dia 1º de agosto, na própria Embaixada, com a presença das entidades americanas envolvidas na negociação (NSI e NAHB), imprensa especializada, empresários do setor e do presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Cerâmica para Revestimentos (Anfacer), Maurício Borges. A articulação internacional teve ainda a colaboração do embaixador Carlos França, no Canadá.

No Espírito Santo, o tema tem sido tratado com prioridade pelo vice-governador Ricardo Ferraço, que coordena um comitê estadual reunindo secretarias e instituições diretamente ligadas à cadeia logística, comercial e industrial afetada pelas tarifas.

- Continua após a publicidade -

O momento agora exige foco e continuidade. O desafio é manter vivo o diálogo bilateral e garantir que a decisão sobre os demais materiais seja revista. Defender o setor de rochas naturais não é apenas proteger exportações brasileiras é garantir previsibilidade, competitividade e abastecimento para uma indústria americana que depende diretamente desses insumos.

Mais do que nunca, este episódio comprova a importância de uma diplomacia comercial moderna, articulada, multilateral e estratégica – feita por embaixadores, sim, mas também por lideranças setoriais, associações empresariais e empresários que conhecem a realidade dos mercados que movimentam.

O Brasil precisa seguir demonstrando, com firmeza e transparência, que nossas rochas naturais não são commodities genéricas. São parte da história, da estética e da funcionalidade de milhões de lares americanos. São, de fato, parte da casa americana. E nenhuma barreira alfandegária muda esse fato.

Fabio Cruz é fundador e CEO da CRUZZTO Log

Leia Mais

Saúde mental deixou de ser problema terceirizado
Como o Brasil deve se posicionar diante da...
Setor de rochas mira mercado dos EUA em...
O tiro, o pé e o vizinho atônito
Venda de salas comerciais cai e setor vive...
EUA rejeitam nova oferta do Irã; veja impacto
Rei Charles confirma ida aos EUA após críticas...
Espírito Santo bate recorde de empregos em 2026
Itamaraty lança guia para brasileiros que vão à...
Quando estratégia, postura e imagem constroem valor
- Continua após a publicidade -

Mais Artigos

Continua após publicidade

RÁDIO ES BRASIL

Continua após publicidade
- Publicidade -

Vida Capixaba