
A cooperação entre pesquisa e gestão não é apenas desejável, mas condição essencial para a construção de avaliações mais robustas, realistas e potencialmente transformadoras
Por Mariana Paim Rodrigues
A avaliação tem se consolidado como um instrumento estratégico para qualificar, orientar e aprimorar políticas e processos no âmbito público. No entanto, sua efetividade depende, em grande medida, da capacidade de articulação entre dois universos que, em muitos contextos, caminharam de forma paralela: a pesquisa e a gestão. A cooperação dessas duas áreas não é apenas uma escolha metodológica, mas uma condição necessária para que a avaliação produza conhecimento relevante e aplicável.
A pesquisa constitui um espaço privilegiado de análise e reflexão, no qual se estruturam procedimentos metodológicos, se sistematizam evidências empíricas e se produzem análises e recomendações sobre os processos em curso. A gestão pública, por sua vez, insere-se no plano da ação, materializando políticas e operando diretamente sobre as dinâmicas territoriais. É nesse entrelaçamento que emergem elementos fundamentais à compreensão da realidade: a fluidez dos processos, os entraves operacionais, as soluções construídas no fazer cotidiano e os caminhos que, na prática, se revelam viáveis.
A experiência gestora não apenas qualifica a leitura dos dados, mas orienta a própria formulação das perguntas de pesquisa. Ao mesmo tempo, a pesquisa oferece à gestão um distanciamento crítico, capaz de revelar padrões, inconsistências e possibilidades de aprimoramento que, no ritmo cotidiano, muitas vezes passam despercebidos. Assim, mais do que uma relação de apoio, trata-se de uma construção conjunta de conhecimento, em que pesquisa e gestão se reconhecem como coprodutoras do processo avaliativo.
Para que essa cooperação seja efetiva, é fundamental que ela se estabeleça desde o início do processo. A construção do projeto de pesquisa não pode ocorrer de forma isolada, restrita ao universo acadêmico ou técnico. Ao contrário, deve envolver ativamente os atores da gestão, garantindo que os objetivos, indicadores e métodos estejam alinhados às demandas reais e às especificidades do contexto de implementação. Essa aproximação inicial cria as bases para uma relação mais transparente e colaborativa ao longo de todo o desenvolvimento da pesquisa.
Outro aspecto central é o contato direto com os atores envolvidos. A avaliação ganha em consistência quando incorpora as percepções, experiências e narrativas daqueles que vivenciam a política pública no cotidiano. Esse diálogo permite uma leitura mais coerente e realista dos processos, evitando interpretações descoladas da prática. Além disso, fortalece o vínculo entre pesquisa e gestão, reduzindo resistências e ampliando a confiança nos resultados produzidos.
No âmbito do Sistema de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas, operacionalizado pelo IJSN, no qual atuo na coordenação de um projeto de avaliação voltado aos serviços de limpeza urbana e manejo de resíduos sólidos, regulados pela ARSP (Agência Reguladora de Serviços Públicos do Espírito Santo), tem sido possível observar, na prática, a importância de estabelecer uma articulação contínua com a equipe de gestão, composta pela própria ARSP e pelos municípios envolvidos no recorte do projeto. Nesse contexto, reuniões e entrevistas se mostram fundamentais para identificar lacunas, reconhecer avanços e compreender os limites e desafios na implementação dos serviços. Além disso, essa integração também é importante para o aprimoramento dos processos metodológicos da pesquisa.
Os momentos de cooperação ao longo da pesquisa desempenham um papel estratégico. Ao invés de aguardar a conclusão dos estudos para implementar mudanças, a equipe gestora pode, desde já, incorporar aprendizados e ajustar processos. Essa dinâmica contribui para transformar a avaliação em um instrumento mais dinâmico, com potencial de retroalimentar a gestão em tempo real. Trata-se, portanto, de uma abordagem que rompe com a ideia de avaliação como etapa final e a posiciona como parte integrante do ciclo das políticas públicas.
Por fim, a colaboração contribui para enfrentar um dos desafios mais recorrentes nesse campo: o risco de que os resultados das avaliações sejam pouco utilizados ou permaneçam “engavetados”. Quando a equipe gestora e técnica participa ativamente do processo, ela não apenas se reconhece nos resultados, mas também se torna corresponsável por sua implementação. O sentimento de pertencimento fortalece o compromisso com as mudanças propostas e amplia as chances de que a avaliação produza efeitos concretos.
Em síntese, a cooperação entre pesquisa e gestão não é apenas desejável, mas condição essencial para a construção de avaliações mais robustas, realistas e potencialmente transformadoras. O campo da avaliação vem se consolidando como um espaço de convergência entre a dimensão técnico-científica e a dimensão política da transformação social. E é na integração de saberes, experiências e perspectivas que se concentra parte significativa de seu potencial.
Mariana Paim Rodrigues é doutoranda em Arquitetura e Urbanismo, coordenadora dos Estudos Territoriais do IJSN e vice coordenadora do Núcleo Vitória do INCT Observatório das Metrópoles

