
Ecocardiograma com strain monitora danos cardíacos em tratamentos oncológicos e doenças autoimunes, garantindo segurança terapêutica
Por Juliana Castiglioni Frizera
Entre o remédio e o veneno, a diferença é a dose. Esse ditado, recheado de sabedoria popular, guarda verdades que são confirmadas pela medicina. Em muitos tratamentos, para diversas questões de saúde, a substância que ajuda a curar a doença em um órgão, pode prejudicar o funcionamento de outro. E, nessa dinâmica, é necessário ter especial atenção ao coração.
Órgão responsável pelo bombeamento do sangue para todo o corpo, o coração pode ser afetado por medicações utilizadas no tratamento de diversas doenças. A oncologia é uma área onde a interface com o coração é especialmente intensa, já que muitas drogas quimioterápicas e outros tratamentos, como radioterapia torácica, terapias-alvo e imunoterapia também podem impactar a área cardiológica.
Diversos tratamentos oncológicos podem apresentar cardiotoxicidade, ou seja, causar impacto tóxico no coração. Em alguns casos, isso pode levar à redução da força do músculo cardíaco, alterações no ritmo cardíaco, aumento da pressão arterial e até insuficiência cardíaca.
Esse fenômeno, no entanto, não se limita ao câncer.
Tratamentos utilizados em doenças autoimunes, como lúpus e artrite reumatoide, além de algumas medicações empregadas em doenças neurológicas e inflamatórias crônicas, também podem gerar repercussões cardiovasculares importantes.
Em certos casos, o próprio processo inflamatório dessas doenças já aumenta naturalmente o risco cardiovascular, criando um cenário que exige ainda mais atenção.
Por tudo isso, o acompanhamento cardiovascular complementar ao tratamento dessas doenças se tornou cada vez mais comum, passando a fazer parte da estratégia terapêutica de diversas áreas da medicina. Nesse contexto, a ecocardiografia com strain ganhou um papel central.
O ecocardiograma com strain é uma modalidade avançada de ultrassom cardíaco que avalia a deformação e a função do músculo cardíaco com alta precisão. Ele detecta disfunções precoces, sendo fundamental para monitorar cardiotoxicidade por quimioterapia, doenças valvulares e miocardiopatias.
Isso é fundamental porque, muitas vezes, o dano cardiovascular começa de forma silenciosa. O mesmo raciocínio vale para pacientes em acompanhamento de doenças autoimunes e outras condições que envolvem terapias potencialmente cardiotóxicas.
Esse é um dos aspectos mais importantes da medicina atual: a capacidade de equilibrar riscos e benefícios de forma individualizada. Em muitos casos, o tratamento que oferece maior chance de controle de uma doença também pode trazer efeitos colaterais relevantes. O desafio está justamente em permitir que o paciente tenha acesso ao melhor tratamento possível sem abrir mão da proteção cardiovascular.
Esse acompanhamento não existe para interromper tratamentos importantes, mas para torná-los mais seguros.
Juliana Castiglioni Frizera é cardiologista e ecocardiografista da Cardiodiagnóstico

