
Pacientes enfrentam longas esperas para consultas consideradas urgentes no sistema de saúde
Por André Gomyde
Você vai ao médico. Até aí, tudo bem. Ninguém vai ao médico por esporte, mas vai. Senta naquela cadeira gelada, responde perguntas constrangedoras sobre hábitos, vícios e intestinos, e espera pelo veredito.
Aí o médico olha os exames, franze a testa daquele jeito que imediatamente faz o paciente envelhecer uns três anos, e diz:
— Hum… isso aqui pode ser algo grave.
Pronto. Nesse momento, seu espírito abandona o corpo e vai procurar uma sombra. Mas o médico continua:
— Precisamos de alguns exames. E quero que consulte urgentemente um cardiologista, um neurologista, um endocrinologista e talvez um especialista em alguma coisa que você nunca ouviu falar. Urgentemente. Essa palavra pesa.
Urgentemente é hoje. Amanhã no máximo. Urgente não combina com calma.
Você sai do consultório meio trêmulo, segurando os pedidos como quem carrega o próprio destino em papel timbrado. Liga para o laboratório.
— Temos vaga para daqui a 28 dias.
Vinte e oito? Mas o médico disse urgente.
— Entendemos, senhor. A urgência dele é diferente da nossa.
Liga para o especialista.
— Primeira consulta em novembro.
Mas estamos em junho.
— Exatamente. Ainda temos boas opções.
É curioso como a medicina trabalha com tempos paralelos. No consultório, tudo é urgente. Na agenda, tudo é futurista.
Você passa então a viver um suspense clínico. Talvez tenha algo grave. Talvez não tenha nada. Mas só saberá depois de trinta dias, ou seis meses, se o sistema colaborar. Aí começa o jogo das culpas.
É culpa de uma sociedade adoecida? Pode ser. Nunca se viu tanta ansiedade, estresse, insônia e dor inexplicável.
É culpa dos planos de saúde, que pagam pouco, exigem muito e transformam consulta em produção industrial? Também pode ser.
Ou é culpa de médicos que, entre um congresso em Lisboa e outro em Barcelona, já não conseguem olhar para o relógio do paciente?
Talvez seja um pouco de tudo. A verdade é que a saúde virou uma grande sala de espera. Espera pelo exame, espera pelo laudo, espera pelo retorno, espera pelo especialista. E o corpo, esse impaciente, não espera.
O mais irônico é que, no fim, quem desenvolve um problema novo é você: ansiedade aguda provocada pela urgência adiada. E isso, curiosamente, também exige consulta. Para daqui a quarenta e cinco dias.
O juramento de Hipócrates continua bonito. Solene, histórico, elegante. Mas talvez precisasse de um adendo moderno:
“Prometo cuidar do paciente, desde que haja horário disponível no aplicativo.”
Enquanto isso, seguimos. Doentes, ansiosos e muito bem agendados.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

