O Impacto da tecnologia: como as redes sociais moldam a vida de um adolescente
Por Luiz Fernando Schettino
Há coisas que não cabem em nenhuma tela. O convívio com a família, as conversas sem pressa, o riso espontâneo entre amigos. Brincadeiras que não precisam de eletrônicos, apenas da imaginação. O simples ato de olhar o céu e contar estrelas, sentir a brisa no rosto, ouvir o canto dos pássaros ao amanhecer. Ir ao cinema com quem se ama, dividir a pipoca, comentar o filme na saída. Ou ainda ligar para alguém só para dizer “estava pensando em você”.
Esses momentos são alimento da alma, mas parecem cada vez mais raros. As telas, com seu brilho incessante, disputam espaço com a vida real. Para muitos adolescentes, elas se tornaram companheiras inseparáveis.
Sou conectado, mas isso não muda o mundo que vivi nem a consciência que tenho da vida. Cresci em um tempo sem telas, sem conexão digital, mais humano e mais simples, onde os valores eram transmitidos no olhar, na conversa e no convívio. É desse lugar que nasce minha preocupação com o presente e com o futuro dos jovens.
Tenho uma filha de 13, quase 14 anos. Inteligente, dedicada, obediente. Estuda inglês, joga vôlei, faz Kirkbox. Mas há algo que me chama atenção: parece que o celular nasceu grudado em suas mãos. Em casa, no carro, até no banheiro, as telas são companhia constante. E o mais curioso: assiste TV com o tablet ou celular ao lado, como se precisasse de duas janelas abertas para o mundo ao mesmo tempo.
Essa cena não é só dela. É de uma geração inteira. O Brasil, atento a esse fenômeno, aprovou uma lei que proíbe o uso de celulares nas escolas, salvo para fins pedagógicos. França, Finlândia, Espanha e Canadá já haviam tomado medidas semelhantes. A Austrália discute até limitar o acesso de menores às redes sociais.
Muitos pais cresceram em outra época, em um mundo sem telas, sem conexão digital, mais humano e mais simples. Um tempo em que o consumo não ditava cada gesto e em que a vida se construía em torno de valores palpáveis, não de algoritmos. Hoje, educar filhos significa enfrentar o apelo consumista, a sedução das marcas, a pressão das redes e a avalanche de informações que chegam sem filtro.
A família precisa ser o primeiro espaço de acolhimento e orientação, ensinando limites e valores. A escola deve ser o lugar da formação crítica, capaz de mostrar aos jovens que nem tudo que circula na internet é verdadeiro. E os governantes têm o dever de criar políticas públicas que protejam crianças e adolescentes, combatendo os riscos digitais.
A mídia, que deveria informar, muitas vezes confunde. As fake news se espalham com velocidade maior que a verdade. Ideologias se infiltram pelas redes sociais, moldando opiniões sem reflexão. Religiosos enganadores encontram espaço para manipular, usando a fé como instrumento de poder. E há ainda os perigos mais sombrios: o vício em apostas online que destrói famílias, a pedofilia que se esconde em perfis falsos, a prostituição que se organiza em plataformas digitais.
Não é de hoje que pensadores alertam para o valor da vida fora das telas. Sócrates, filósofo grego que viveu no século V antes de Cristo, já dizia que “uma vida sem reflexão não merece ser vivida”. Muito mais tarde, na década de 1960, Marshall McLuhan, teórico canadense da comunicação, antecipou que “o meio é a mensagem”.
Hannah Arendt, filósofa alemã que escreveu A Condição Humana em 1958, lembrava que nossa essência se realiza na ação e no encontro com os outros. Simone de Beauvoir, pensadora francesa que marcou a década de 1940 com O Segundo Sexo, afirmava que “não se nasce mulher, torna-se”.
Elisabeth Noelle-Neumann, socióloga alemã que nos anos 1970 formulou a teoria da espiral do silêncio, advertia que muitas pessoas deixam de expressar suas opiniões por medo de isolamento, e as redes sociais parecem ampliar esse fenômeno. Sigmund Freud, pai da psicanálise que revolucionou o pensamento no início do século XX, já alertava que o ser humano é movido por pulsões inconscientes.
Carl Jung, também no século XX, lembrava que todos carregamos arquétipos e máscaras sociais, e que muitas vezes nos escondemos atrás delas. Hoje, as redes sociais parecem ser palco onde essas máscaras se multiplicam, criando identidades artificiais em busca de aprovação.
Papa Leão XIII, ao escrever em 1891 a encíclica Rerum Novarum, refletia sobre justiça social e dignidade do trabalho em meio às transformações da modernidade. E Papa Leão XIV, ao lançar em 2026 sua primeira encíclica Magnifica Humanitas, recordou que o progresso técnico, incluindo a inteligência artificial, só tem sentido se estiver a serviço da paz e da dignidade humana.
As telas nasceram como ferramentas, mas se transformaram em espelhos e prisões. Aproximam, mas também isolam. Moldam comportamentos, criam dependências e, muitas vezes, roubam o silêncio necessário para pensar.
E eu me pergunto: será que minha filha molda as redes sociais, ou são as redes que moldam a vida dela? Talvez a resposta esteja em resgatar o equilíbrio, usar a tecnologia como ponte, sem esquecer que o céu, as estrelas e o canto dos pássaros continuam lá, esperando para serem vividos.
Luiz Fernando Schettino é Engenheiro Florestal, Mestre e Doutor em Ciência Florestal, Advogado, Escritor, Ambientalista e Ex-Secretário Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Espírito Santo

