Com expansão acelerada após o novo marco legal, estado melhora indicadores de água e esgoto, mas enfrenta desafios para universalizar o serviço e reduzir perdas
Por Geilson Ferreira
A infraestrutura de saneamento básico no Espírito Santo passou por uma transformação relevante nos últimos anos, impulsionada pelo novo marco legal do setor e pela ampliação das parcerias com a iniciativa privada.
Os dados mais recentes, com base na série histórica oficial do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (atual SINISA), mostram avanços consistentes na cobertura de água e esgotamento sanitário, mas também evidenciam gargalos históricos, especialmente na eficiência operacional e na universalização dos serviços.
No abastecimento de água, o estado já opera em um patamar elevado de cobertura, próximo da universalização. A série recente indica estabilidade em níveis superiores a 80% da população atendida, com avanços graduais nos municípios do interior. Esse desempenho coloca o Espírito Santo entre os estados com melhor acesso à água tratada no país, refletindo investimentos contínuos e uma estrutura institucional relativamente consolidada.
O cenário é mais desafiador quando se observa o esgotamento sanitário. Apesar do avanço expressivo desde 2020, a cobertura ainda está em processo de expansão e apresenta desigualdades regionais importantes. A adoção de Parcerias Público-Privadas (PPPs) foi determinante para acelerar esse crescimento, permitindo ampliar a capacidade de investimento e antecipar metas que, no modelo tradicional, levariam décadas para serem alcançadas.
Essa expansão recente segue uma lógica clara: universalizar o acesso até o início da próxima década, conforme estabelecido pelo novo marco legal do saneamento. No entanto, o ritmo de crescimento exige não apenas obras de infraestrutura, mas também capacidade de gestão, regulação eficiente e equilíbrio econômico-financeiro dos contratos — fatores críticos para a sustentabilidade do setor no longo prazo.
Um dos principais desafios estruturais está nas perdas na distribuição de água. Assim como em grande parte do Brasil, o Espírito Santo ainda apresenta índices elevados de perdas, resultado de vazamentos, ligações irregulares e ineficiências operacionais. Esse indicador é particularmente relevante porque impacta diretamente os custos do sistema, a disponibilidade hídrica e a necessidade de novos investimentos em captação e tratamento.
Vazamentos ocultos, fraudes, falhas de medição e redes envelhecidas transformaram o sistema de abastecimento em um “ralo invisível”, drenando eficiência, receita e capacidade de investimento. Durante anos, o Espírito Santo conviveu com um problema silencioso, porém caro: quase metade da água tratada simplesmente não chegava ao faturamento.

A redução dessas perdas é, hoje, uma das agendas mais estratégicas do saneamento. Mais do que ampliar a oferta, trata-se de melhorar a eficiência do que já existe. Programas de modernização de redes, uso de tecnologia para monitoramento e substituição de infraestrutura antiga são medidas essenciais para enfrentar esse problema.
Apesar dos desafios, a direção é clara. A redução de perdas não é apenas uma questão técnica, mas também econômica. Cada ponto percentual recuperado representa milhões de litros de água que deixam de ser desperdiçados e passam a gerar receita, reduzindo a necessidade de novos investimentos em captação e aumentando a sustentabilidade financeira do sistema.
Outro ponto relevante é a relação entre saneamento e desenvolvimento econômico. A expansão da coleta e tratamento de esgoto tem impacto direto na saúde pública, na valorização imobiliária e na atração de investimentos, sobretudo em setores como turismo, indústria e serviços. Municípios com melhor infraestrutura sanitária tendem a apresentar maior dinamismo econômico e melhores indicadores sociais.
Do ponto de vista estrutural, o saneamento também funciona como um vetor de redução de desigualdades. Regiões historicamente menos atendidas passam a ter acesso a serviços básicos, o que melhora as condições de vida e amplia as oportunidades de desenvolvimento local. Nesse sentido, o avanço recente no Espírito Santo não é apenas quantitativo, mas também qualitativo.
O Espírito Santo vive um ciclo de expansão gradual do esgotamento sanitário nos últimos anos, com avanços contínuos tanto na cobertura de coleta quanto no tratamento do esgoto.

Ainda assim, o estado enfrenta um desafio típico de sistemas em expansão: equilibrar velocidade e qualidade. A pressão por universalização precisa ser acompanhada de padrões adequados de operação, manutenção e atendimento à população. Sem isso, há risco de criar uma infraestrutura extensa, porém ineficiente.
Assim, o Espírito Santo vive um momento de inflexão no saneamento básico. Os avanços são claros e relevantes, sobretudo na ampliação do esgotamento sanitário e na consolidação do abastecimento de água. No entanto, a universalização plena e a melhoria da eficiência operacional ainda exigirão um ciclo contínuo de investimentos, inovação e gestão.
Se bem conduzido, esse processo pode transformar o saneamento em um dos pilares da competitividade e da qualidade de vida no estado — deixando de ser apenas um serviço essencial para se tornar um ativo estratégico do desenvolvimento capixaba.
Essa matéria é uma republicação da edição 233 da Revista ES Brasil – ES Em Números. Confira a edição digital completa aqui.

