Tecnologia desenvolvida no Espírito Santo conquista prêmio nacional e mira mercado internacional de insumos sustentáveis
Por Nathanael Rodor
Transformar um resíduo agrícola sem valor comercial em matéria-prima para a indústria cosmética foi o caminho encontrado pela startup capixaba Kemi Nanomateriais LTDA para desenvolver uma tecnologia sustentável que já começa a ganhar reconhecimento nacional. A empresa, sediada em Vargem Alta, conquistou o 3º lugar na categoria Sustentabilidade do Clean Beauty Awards, durante a Naturaltech, maior feira de produtos naturais, orgânicos e bem-estar da América Latina, com um esfoliante biodegradável desenvolvido a partir da casca de arroz e da microcelulose extraída da bananeira.
A ideia nasceu da percepção de que boa parte das matérias-primas utilizadas pela indústria cosmética brasileira ainda é importada ou derivada do petróleo, apesar da abundância de recursos naturais disponíveis no país. “Nossa inovação foi desenvolver uma nanocelulose a partir dos resíduos da bananeira. Transformamos um passivo agrícola em um ingrediente de alto valor para a indústria de cosméticos, promovendo a economia circular e reduzindo a dependência de matérias-primas importadas”, explica Karla Feu, fundadora da empresa e doutora em Química.

A inovação deu origem à B.Kemi, marca de aditivos químicos da empresa, e à Muzie Essence, linha de cosméticos. A matéria-prima é produzida por um processo baseado em química verde e economia circular que reaproveita integralmente o tronco da bananeira, substituindo insumos derivados do petróleo e a celulose tradicional obtida da madeira de eucalipto. A tecnologia já está com pedido de patente depositado.
“O maior desafio é transformar uma pesquisa em um produto escalável. Não é simples fazer essa transição do laboratório para o mercado. O apoio da Fapes foi fundamental desde a ideia inicial, permitindo financiar a pesquisa até conseguirmos colocar a tecnologia no mercado. Sem esse incentivo, dificilmente conseguiríamos transformar uma inovação científica em um produto comercial”, afirma Karla.
Além de desenvolver uma matéria-prima renovável, a startup criou um modelo de negócio baseado na valorização da cadeia agrícola. Em vez de receber resíduos gratuitamente, a empresa compra o tronco da bananeira de produtores rurais da região de Vargem Alta, gerando renda e reduzindo um passivo ambiental. “O tronco da bananeira normalmente é descartado após a colheita. Nós compramos esse material, retiramos um resíduo que poderia até favorecer a proliferação de vetores de doenças e o transformamos em um biomaterial de alto valor agregado para a indústria cosmética”, explica.
Segundo a fundadora da empresa, o reconhecimento nacional também evidencia a capacidade do Espírito Santo de desenvolver tecnologia de ponta. “Sou formada no Ifes, fiz doutorado e pós-doutorado no exterior, mas decidi voltar para empreender aqui. Esse prêmio mostra que o Espírito Santo tem capacidade científica e produtiva para desenvolver inovação de alcance internacional. Em apenas oito meses de mercado com a Muzie Essence, conseguimos competir com marcas que estão há mais de 20 anos no setor.”

Além da linha voltada ao mercado de cosméticos, a empresa também desenvolve a Dust Less, solução biodegradável para controle de poeira na mineração. Agora, a expectativa é ampliar a carteira de clientes e consolidar a exportação dos biomateriais produzidos no Espírito Santo. Durante a Naturaltech, a startup iniciou negociações com investidores e parceiros internacionais.


