
A maioria das sociedades no Brasil não termina por falta de negócio, mas por excesso de coisas que não foram conversadas antes
Por Valéria Effgen
A maioria absoluta das sociedades no Brasil se dissolve antes de o negócio ter chance de amadurecer. Nas duas décadas em que acompanho estruturações empresariais, uma constatação se repete: quando uma sociedade quebra, nem sempre é o negócio que falhou, mas a sociedade, em si, que nunca foi bem construída.
Existe uma confusão silenciosa que precisa ser desfeita: sociedade não é sinônimo de amizade que virou negócio. Sociedade é uma estrutura formal de convivência empresarial, com regras próprias, expectativas explícitas, e principalmente previsão de saída. Quando essa estrutura não é construída com o cuidado que merece, o que sobra é o afeto entre os sócios servindo de único cimento. E o afeto, por mais sincero que seja, não sustenta o dia a dia da operação de negócio, que pode ser difícil.
Nas sociedades que sobrevivem por muitos anos, quatro pilares foram construídos com intenção, muitas vezes antes mesmo do CNPJ ser aberto.
O primeiro é o alinhamento de propósito: Qual visão de futuro cada sócio tem para o negócio? Onde ele quer estar em cinco anos? Que tamanho ele quer que a operação alcance? Sócios com visões incompatíveis trabalham juntos por um tempo, mas cedo ou tarde, uma cisão vem, disfarçada de outra coisa.
O segundo é o equilíbrio de expectativas: O que cada um espera receber da sociedade? Dinheiro, tempo livre, reconhecimento, sucessão familiar, projeção pública? Sócios que esperam coisas diferentes se sentem, mutuamente, injustiçados sem entender direito por quê.
O terceiro é o reconhecimento de esforço: Como o trabalho de cada um será medido para que ninguém sinta que carrega mais do que deveria? Esse é o pilar mais delicado, porque esforço é sempre percebido de forma assimétrica. Sem métricas combinadas, todo sócio, ao longo do tempo, acredita silenciosamente, que está fazendo mais que o outro.
O quarto é a previsão de conflito: O que acontece quando discordarmos em decisões importantes? O que acontece se um de nós quiser sair? O que acontece se um adoecer, se envolver em processo, e se mudar de vida? Sociedades duradouras têm essas respostas antes das perguntas aparecerem.
E aqui mora uma camada que precisa ser nomeada com honestidade, porque adoece muita sociedade feminina antes do tempo. Nós, mulheres, costumamos entrar em sociedade por afinidade emocional. A amiga que sempre apoiou, a comadre que compartilha valores, a colega que se tornou irmã.
No entanto, acontece muitas vezes que, na hora de estruturar formalmente, resistimos à formalidade, porque nos parece fria, calculista e desnecessária “entre nós”. Só que é justamente aí que mora o erro. A formalidade não é desconfiança, é proteção.
Contrato bem escrito não questiona a amizade, pelo contrário, protege essa amizade tão preciosa. Cláusula de saída bem definida não prevê o pior, poupa as sócias de discussões dolorosas se o pior um dia vier.
Estruturar bem uma sociedade é o gesto mais generoso que se pode fazer pela amizade que existe dentro dela.
Se você já está em sociedade, ou está prestes a entrar em uma, existe um exercício simples que posso te recomendar. Sente com a(o) sua(seu) sócia(o) e, juntos, respondam separadamente, cada um no seu papel, a quatro perguntas:
- Que visão de futuro eu tenho para este negócio nos próximos cinco anos?
- Que retorno eu espero receber?
- Como acho que o esforço de cada um deveria ser reconhecido?
- O que acontece se, um dia, um de nós quiser sair?
Depois, comparem as respostas com honestidade e analisem as divergências que aparecerem, pois elas são o mapa do que ainda precisa ser conversado. Divergências detectadas cedo, em ambiente ainda amigável, se resolvem com calma, mas divergências não conversadas viram ressentimento silencioso, e ressentimento, com o tempo, vira rompimento.
Uma sociedade pode durar anos quando é construída com a mesma seriedade com que se constrói um negócio.
Amizade cabe perfeitamente dentro de uma sociedade, mas não pode ser a base dela. Estruture antes, formalize sempre e converse todas as vezes que a formalidade parecer “excessiva demais entre nós”, pois é exatamente esse excesso que vai salvar a sociedade quando a amizade não estiver no seu melhor momento. É essa proteção que segura a estrutura enquanto o afeto atravessa uma fase difícil.
Sociedade bem estruturada não é para desconfiar de ninguém. Ela protege todo mundo, e sobretudo o negócio que vocês construíram juntas.
Valéria Effgen é executiva, fundadora do Voa Mulher e advisor da plataforma de planos de negócios Vibz. Atua com estratégia e desenvolvimento de negócios há mais de 20 anos

