
Cuidar das contas é indispensável, e isso já é consenso no Espírito Santo. A maturidade administrativa está na capacidade de transformar equilíbrio financeiro em política pública de qualidade
Por Carlos Lopes
O Espírito Santo passou a se destacar nacionalmente em responsabilidade fiscal a partir de 2012, quando começou a receber nota A na avaliação da Secretaria do Tesouro Nacional. Desde o primeiro governo Renato Casagrande (2011–2014), o equilíbrio fiscal deixou de ser apenas uma exigência técnica e se tornou uma escolha política: organizar as contas públicas para ampliar investimentos e garantir direitos.
Entre 2015 e 2018, porém, o Estado viveu forte retração nos investimentos. A comparação entre ciclos evidencia a diferença entre quem cuida das contas para garantir direitos e quem diz cuidar, mas acaba restringindo-os. Na segurança, os investimentos somaram R$ 239 milhões; entre 2019 e 2025, chegaram a R$ 1,7 bilhão. Na educação, passaram de R$ 263 milhões para R$ 2,8 bilhões. Na saúde, de R$ 158 milhões para R$ 1,5 bilhão. Em infraestrutura, o salto foi de R$ 812 milhões para R$ 12,3 bilhões. Mais que números, trata-se de concepção de Estado.
A partir de 2019, o Espírito Santo retomou a lógica da responsabilidade fiscal com investimento social. Na segurança, foram 9.054 novos agentes, 191 unidades construídas ou reformadas e redução histórica dos homicídios, no menor nível em 30 anos. Na educação, o Estado passou a figurar entre os melhores do país, com maior investimento por aluno e expansão do ensino integral e técnico. Na saúde, ampliou consultas, exames e cirurgias, universalizou o SAMU e expandiu a atenção primária para 97%, além de construir novos hospitais.
Os resultados dessa combinação entre equilíbrio fiscal, capacidade de investimento e eficiência administrativa continuam sendo reconhecidos nacionalmente. Levantamento divulgado em maio de 2026 pelo Centro de Liderança Pública (CLP), com repercussão no Poder360, apontou o Espírito Santo como o estado mais eficiente do Brasil em gestão pública. O ranking considerou indicadores relacionados à solidez fiscal — como gasto com pessoal, liquidez, poupança e investimento — e à eficiência administrativa, incluindo digitalização de serviços, transparência e equidade (CLP/Poder360, 2026).
Cuidar das contas é indispensável, e isso já é consenso no Espírito Santo. A diferença está na pergunta que orienta a ação pública: cuidar das contas para quê? Para equilibrar planilhas ou para garantir escolas melhores, hospitais funcionando, segurança nas ruas e oportunidades para os jovens?
Responsabilidade fiscal, quando tem propósito, é meio, não fim. É um instrumento para melhorar a vida das pessoas. Não por acaso, o Estado alcançou o 1º lugar em Transparência e Governança Pública e apresenta hoje a melhor situação fiscal do país, com mais disponibilidade financeira do que dívida, uma posição rara no Brasil. Enquanto isso, estados como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e São Paulo, com governos de orientação liberal, lideram o ranking de endividamento proporcional à receita.
O Espírito Santo mostrou que é possível combinar responsabilidade fiscal com responsabilidade social. A maturidade administrativa não está no corte pelo corte, mas na capacidade de transformar equilíbrio financeiro em política pública de qualidade, especialmente para os mais vulneráveis. É nesse caminho que precisamos seguir.
Cuidar das contas, sim. Mas sempre para cuidar das pessoas.
Carlos Lopes é professor, sociólogo, mestre e doutorando em Ciências Sociais (UFES) e Coordenador Geral da Fundação João Mangabeira no Espírito Santo

