
Há frases que entram em nós sem pedir licença, e há frases que, anos depois, saem da nossa boca sem que a gente perceba
Por Valeria Effgen
“Eu não sou boa com números.”
Tenho certeza de que você já ouviu alguma mulher dizer essa frase. Talvez versões parecidas: “Não levo jeito para vender.” “Sou tímida demais para liderar.” “Tecnologia não é para mim.” Talvez você mesma já tenha dito uma dessas.
Essas frases costumam aparecer com naturalidade, como quem comenta uma roupa. A mulher fala de si mesma como se estivesse constatando um fato indiscutível. É justamente essa naturalidade que precisa nos chamar atenção.
Isso porque, na maioria das vezes, ela não está descrevendo uma verdade, mas sim repetindo, sem perceber, uma opinião antiga que um dia recebeu de alguém e absorveu como destino.
Em vinte e tantos anos de carreira, vi essa cena se repetir tantas vezes que já não me espanta. Mulheres competentes, capazes de sustentar tantas frentes, carregando uma certeza rígida sobre uma única área. Em casos assim, quase sempre, quando se pergunta de onde vem essa convicção, a resposta despretensiosa revela a origem concreta que pode ser uma professora, um chefe, uma comparação feita em casa, uma crítica recebida na juventude. Às vezes a memória vem nítida, outras em fragmentos, e mesmo assim, a frase ficou.
Esse ponto precisa ser dito com clareza, porque adoece muita mulher competente em silêncio: crenças limitantes raramente são abstrações vagas. Crenças limitantes, muitas vezes, vem de frases concretas, ditas por alguém específico em um momento específico, e absorvidas como fato em uma idade em que ainda não tínhamos estrutura para separar a opinião de quem nos olhava da verdade sobre quem éramos.
Crenças limitantes têm origem rastreável. Elas possuem nome, lugar, voz e endereço emocional. Porém, com o tempo, esquecemos a origem e ficamos apenas com a sentença.
Enquanto a origem da frase fica esquecida, ela governa a partir de um lugar inconsciente, como se fosse um pano de fundo atrás das nossas decisões. Funciona como uma programação antiga que segue rodando mesmo depois de a mulher ter mudado de fase, de cargo, muitas vezes de vida.
Existe algo que se repete entre nós e merece ser nomeado: muitas das crenças que mais nos limitam estão ligadas a territórios historicamente associados ao masculino, passando por dinheiro, vendas, autoridade, liderança, decisão técnica, comando. Essas frases foram, muitas vezes, instaladas por figuras de autoridade na infância ou juventude, em momentos em que estávamos vulneráveis à interpretação de quem nos olhava.
Mas a boa notícia é que tem jeito de resolver!
O trabalho de desfazer uma crença limitante pode partir de um gesto simples, quase ingênuo, de escrever a frase no papel. Mas atenção: Escrever, não apenas pensar.
Uma frase escrita perde parte do poder que tinha quando vivia só dentro da cabeça e começa a revelar sua verdadeira natureza: uma opinião emitida por alguém, há muito tempo, sobre uma menina que já se tornou outra pessoa várias vezes desde então.
Depois da frase escrita, vem a pergunta de rastreamento: quem me disse isso pela primeira vez?
Quando a frase ganha CPF, ela perde autoridade. Não desaparece de imediato, mas já não parece destino, já não parece identidade. Nesse momento ela passa a ser o que sempre foi: uma interpretação antiga, carregada por tempo demais.
Vem, então, a pergunta mais importante e estratégica: essa frase ainda me serve?
Talvez tenha servido um dia, talvez tenha te protegido de tentar algo antes da hora, talvez tenha justificado um recuo em território onde você ainda não se sentia segura. Mas será que a mulher que você é hoje, depois de tantas travessias, é a mesma menina que recebeu aquela frase? Quase nunca é. Nesse caso, uma frase colocada para limitar a menina não tem o direito de continuar governando a mulher.
Então, minhas amigas, façam esse exercício com honestidade.
Identifiquem a frase, escrevam no papel, rastreiem a origem, devolvam CPF ao que parecia ser seu destino. Depois disso, com toda a maturidade da mulher que vocês se tornaram, decidam se essa frase ainda merece morar dentro de vocês.
Valéria Effgen é executiva, fundadora do Voa Mulher e advisor da plataforma de planos de negócios Vibz. Atua com estratégia e desenvolvimento de negócios há mais de 20 anos

