
Projetos complexos são aqueles com muitos especialistas. Cada um domina profundamente sua área. O problema começa quando eles precisam conversar entre si
Por André Gomyde
Outro dia me explicaram o que é um projeto complexo. Eu, inocente, achei que fosse algo difícil. Descobri que não é só difícil. É organizado de um jeito que parece fácil — o que torna tudo mais complicado.
Projetos complexos são aqueles com muitos especialistas. Tem o engenheiro, o advogado, o economista, o sujeito da tecnologia, a pessoa da comunicação, alguém do financeiro, outro do planejamento e, inevitavelmente, aquele que “faz a ponte”, que nunca fica claro entre o quê e o quê, mas está sempre ocupado.
Cada um domina profundamente sua área. O problema começa quando eles precisam conversar entre si. Não por falta de boa vontade, mas por excesso de especialização. Cada um fala um idioma técnico diferente. Se colocarmos todos na mesma sala, é possível que produzam um documento excelente — desde que ninguém tente entender o parágrafo do outro.
Para resolver isso, criaram os coordenadores. O especialista não responde apenas a um chefe, mas a vários. É uma experiência administrativa rica: você recebe três orientações diferentes para fazer a mesma coisa e precisa descobrir qual delas está mais próxima da realidade.
Os coordenadores, por sua vez, se coordenam entre si. Ou, pelo menos, tentam. E acima deles existe o gestor geral, essa figura quase mitológica que precisa entender de tudo um pouco: institucional, político, financeiro, administrativo, contábil e, se sobrar tempo, de gente.
É o chamado super gestor. Uma espécie de maestro corporativo.
E é aí que a metáfora fica irresistível. Um projeto multissetorial integrado é como uma grande orquestra. Cada músico é especialista no seu instrumento. O violinista não se mete com o trombone, o percussionista não discute com o oboé. Mas todos precisam tocar juntos, no mesmo tempo, na mesma intenção.
O desafio não é tocar bem sozinho. É saber a hora de entrar, a hora de silenciar e, principalmente, a hora de não querer ser o solo quando a música pede conjunto.
Sem a batuta do maestro, cada um começa a tocar sua própria sinfonia. E o resultado é um espetáculo experimental, desses que ninguém entende, mas todos fingem apreciar.
Quando funciona, porém, é bonito de ver. A integração acontece, os comandos fazem sentido, as áreas conversam e o projeto entrega o que prometeu. Parece até simples.
Mas não se engane. Por trás de cada “funcionou perfeitamente” existe um batalhão de gente afinando, ajustando, cedendo, negociando e, às vezes, respirando fundo para não tocar mais alto do que deveria.
No fundo, projetos complexos não são sobre tarefas. São sobre pessoas tentando, heroicamente, fazer sentido juntas.
E quando conseguem, dá até vontade de aplaudir de pé. Sem partitura.
André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

