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A invenção da roda já tinha dono

No fim das contas, quem tenta enganar os outros dizendo que inventou a roda… geralmente não sabe nem para onde ela gira

A invenção da roda já tinha dono

Por André Gomyde

Tem gente que vê uma casa bonita, entra pela porta dos fundos e, quando perguntam, responde: “Foi tudo ideia minha”. Gente que pinta em cima da obra alheia, mas com tinta aguada. Gente que copia receita sem saber dos segredos do tempero — e ainda serve o prato dizendo que inventou o sal.

Vivemos tempos de atalho. A pressa virou virtude. O “me inspirei” virou disfarce para o “eu roubei mesmo”. E o respeito virou item de colecionador.

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Respeitar o que o outro construiu é, no mínimo, reconhecer que a escada que você está subindo foi feita com o martelo e o calo de alguém. Não é só sobre ética, é sobre elegância. E elegância, como a história e a autoria, não se compra em tutorial.

A tragédia é quando a cópia malfeita ganha palanque. Porque além de se apropriar, o falsificador ainda sai por aí ensinando aos outros como fazer a coisa que ele mesmo não entendeu direito. É como imitar o Chaplin sem saber que ele era mudo nos filmes — só que o plagiador ainda grita.

O problema não é admirar. Admirar é lindo. É nobre. Admirar é olhar e dizer: “Uau, que ideia boa, quero aprender com ela.” O problema é desejar tanto ser dono da ideia que a admiração vira tentativa de roubo. E aí a beleza vira farsa. A colaboração vira disfarce. E a verdade, que deveria ser partilhada, vira refém.

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Quando alguém tenta se apropriar do que é do outro, o que se quebra não é só o contrato moral entre as pessoas. O que se quebra é a confiança no próprio valor do esforço. Porque a mensagem que se espalha é: “Não precisa fazer. É só copiar e falar alto.”

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Mas quem vive de repetir o que não criou está sempre com um vazio no bolso e outro maior na alma. Porque no fim, quem rouba ideia tem que viver com o medo constante de ser desmascarado — e o mais cruel: de jamais conseguir criar algo próprio.

A vida vale pela honestidade com que se vive. A construção verdadeira é feita de tijolo, não de papel-carbono. É feita de erro, de tentativa, de noites em claro — não de atalhos sorrateiros.

Respeitar o que o outro construiu é uma forma de dizer: “Eu também posso construir, mas do meu jeito.” E isso é bonito demais. Isso é viver com dignidade.

Porque no fim das contas, quem tenta enganar os outros dizendo que inventou a roda… geralmente não sabe nem para onde ela gira.

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André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

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