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O dono do mundo

 

E quem sempre se acha dono do espaço alheio acaba descobrindo que não cabe nem no próprio

O dono do mundo

 

Por André Gomyde

Tem gente que entra na fila como quem entra em casa: sem pedir licença, sem bater na porta e sem nem perceber que existe alguém na frente. É o tipo de pessoa que acha que o tempo é relativo — relativo apenas ao relógio dela. E que espaço é uma invenção dos físicos, não dos outros cidadãos que respiram ao lado.

Essa gente tem um talento raro: consegue atrasar o trabalho dos outros e, de quebra, ainda posar de vítima. Se um compromisso começa às nove, ela chega às dez, explica que “trânsito é isso mesmo” e se senta como se tivesse feito um favor de aparecer. A reunião já andou, já desandou, mas lá está o folgado, abrindo o laptop, pedindo para “retomar só um pouquinho”. E como se não bastasse, ainda se acha com direito de opinar no final, como se tivesse participado desde o prólogo.

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É gente que parece viver num universo paralelo, onde todos os relógios estão quebrados e todas as filas são decorativas. Se no supermercado você coloca as compras na esteira, ele aparece atrás e enfia duas garrafas de refrigerante na frente, como quem diz: “isso não conta, é só uma coisinha”. O problema é que, somadas, as coisinhas viram uma carreta estacionada no meio da faixa de pedestre.

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Mas o pior não é o atraso em si. É a falta de noção de que há um mundo em movimento, cheio de engrenagens que dependem de cada pequeno parafuso. O folgado, não: acredita que é o eixo central. Se parar, o resto que se adapte. Ele acha que está sozinho no mundo, e que os desejos dele valem mais do que os compromissos alheios.

A vida, no entanto, tem senso de humor. Quem sempre fura fila, um dia descobre que existe fila até para reclamar. Quem sempre atrasa, descobre que alguns trens não esperam. E quem sempre se acha dono do espaço alheio acaba descobrindo que não cabe nem no próprio.

Respeitar fila, horário e espaço é menos sobre educação e mais sobre convivência. É reconhecer que não somos ilhas. É entender que o mundo só gira porque existe uma dança silenciosa de cada um cedendo um pouco. O folgado, coitado, dança sozinho. E desafinado.

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André Gomyde é presidente do Instituto Brasileiro de Cidades Humanas, Inteligentes, Criativas e Sustentáveis e Mestre em Administração pela FCU, nos Estados Unidos. Instagram: @andre.gomyde

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